sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Atitude perpétua associativa

"O último Eurobarómetro mostra que a confiança dos portugueses no funcionamento da democracia está a bater no fundo. Estão mais cépticos do que a maioria dos outros europeus, mas continuam a poupar nos protestos e vão fazendo o que sempre fizeram: ir embora. Como o pior ainda está para vir, há quem antecipe manifestações maiores e mais duras. Mas também quem preveja que a penalização se faça sentir da forma habitual: através do voto, Público"

Curiosamente este trecho reporta-me a uma célebre música dos Deolinda, ora espera lá...

-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...

É isso mesmo, sem tirar nem pôr: vão sem mim, que eu vou lá ter. No entanto, nada obsta a que dia 24 de Novembro eu lá esteja impreterivelmente e a apensar voz ao mote uníssono do "- Vamos em frente e havemos de vencer!" (porquanto não há nada mais aprazível e racional do que fazer greve durante a semana e dar uma despesa ao Estado de 280 mil milhões de euros). Soa-me outrossim àquele sketch do Gato Fedorento sobre a despenalização/liberalização do aborto quando aplicado analogicamente à letargia - que repousa nos corpos dos portugueses - do conformismo subitamente convertida na efervescência própria da greve: " Olha, vou ao cinema! Está esgotado...vou fazer greve!" e vejam lá que até calha bem, visto que eu esta semana ainda não tinha barafustado, feito queixa, reclamação ou afim e assim aproveito, faço um bulício à maneira na greve e baldo-me ao trabalho. Depois da greve, vou comer uma bucha, que se não houver bucha não contem comigo!"
Prosseguindo numa descontrolada leitura arrítmica à notícia, afiro que
"... 69 por cento dos portugueses mostram-se insatisfeitos com o funcionamento da democracia, 76 por cento proclamam que não têm confiança no Governo, 67 por cento afirmam o mesmo em relação ao Parlamento e 82 por cento desconfiam dos partidos políticos". 69 por cento...curioso número, não nas minhas palavras, mas nas palavras desatracadas de Mota Amaral, sentindo-se libertinamente inspirado a meio de mais uma sóbria e solene sessão plenária da AR. A verdade é que existe alguma confusão cognoscitiva quanto à constituição do sistema político do nosso país, pelo que constato. Ora, o Parlamento é composto por partidos políticos (evidentemente por aqueles que têm expressão) que, por sua vez, prefiguram no Parlamento, logo, parece-me que os portugueses tomam os políticos por bipolares; só isso explica que a confiança investida (em %) no Parlamento seja visivelmente superior à depositada nos partidos. Ou, a contrario sensu, se a sondagem afigurasse diversos moldes, estariam os portugueses a declarar que "são todos uma cambada de mentirosos, uns chupistas e uns ladrões, todavia, são mais convincentes quando vistos no programa Parlamento". Isto é legítimo e inequivocamente compreensível, não obstante, onde leio "ocorreu um salto dramático" na percepção que os portugueses têm dos efeitos da crise económica e financeira.", preferia ler, em anexo, que os vários postos de emprego recusados longitudinalmente pelo país com vista a aceder ao fácil subsídio de desemprego, tinham sido preenchidos pelos alegados "estrangeiros que tão para aqui a roubar aos portugueses"por falta de melhor! Salto dramático é preterir oportunidades de sustento honesto para abraçar a inércia parasitária.



sábado, 19 de junho de 2010

Candeia

Eu queria dizer-te palavras de hoje,
Esboçar palavras de amanhã,
Rabiscar palavras de outrora
Que seriam de outros tempos se os tempos fossem outros...

Agora amanheceu e as palavras aspergem-se em nevoeiro;
(E o que é o nevoeiro senão aquilo que foi e a esperança de voltar a ser?)
Mergulharam no esquecimento sem, na realidade, desaparecer
E correram o mundo escorando-se noutros braços, noutras baladas...
O que mudou não foi o que caiu em mãos erradas,
Foi o brilho que soía ser certo.

Mas até o que é certo expira; no fim, sobejam, flutuantes,
Candeias de frugal e remota flama;
O que seria depois e o que foi dantes
Jazem nesse fulgor desamparado que nem já fulgor se chama.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2. Os pervertidos dos lupanares

Comecei a questionar-me sobre a minha sorte quando, já não bastando a acolhedora vizinhança, descobri o mais improvável dos cenários: um "ponto de encontro" camuflado pelo regular e comedido aspecto de uma tosca marisqueira cuja clientela habitual era nem mais nem menos do que o mesmo "coro dos velhos" que me fustigava a paciência naquele prédio infernal. Tinha vindo a desconfiar daquela suspeita e invariável frequência nocturna, no entanto, inebriada pela ingenuidade sempre havia pensado que " os velhotes, coitados...também precisam de entretenimento e mais dois dedos de conversa". O momento de reviravolta decorreu sobretudo no ápice em que um desses camaradas me intimou em plena rua -vinda eu de um café onde tinha estado com o meu cão - para escarrar a conspurcada deixa: " Eu percebi muito bem que o seu cão gosta de pular para o meio das pernas das mulheres...". Nem teve direito a resposta! Não porque com silêncio o quisesse reprovar, mas porquanto não tive aquela perversa perspicácia instantânea para depreender de imediato a grosseira mensagem que estava subentendida. Tudo isto convergiu para um segundo francamente confuso - por um lado estava melindrada pelo que me acabava de ser dito e, por outro, agradavelmente surpreendida por, ao contrário do habitual e ainda que fugazmente, ter sido estupidamente inocente. Fosse como fosse, algo continuava terrivelmente errado naquele panorama: como era possível que aquelas raparigas extravagantemente trajadas não fossem logo expulsas da porta do tal restaurante? Por que motivo estaria incessantemente, "à vara larga", aquele rancho de velharia especado àquela porta todas as noites sem excepção? Mais, se já estavam servidos e saciados durante a noite, de onde viria aquela inusitada necessidade de cuspir piropos durante o dia? Até hoje só inferi uma única coisa: aquela sede de sexo é congénita e altamente contagiosa entre indivíduos a cair de podres nesta região.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

4. Afinal as paredes não só escutam como falam

Já todos viram ou pelo menos ouviram falar dos filmes "Duplex" e "Uns compadres do pior" (Meet the Fockers). Pois bem, a minha narração não só perpassa as mais diversas provações e hilariantes - embora irritantes e travessas (e verídicas!) - conjecturas que estes filmes afiguram, como as superam sobejamente, extravasando as margens do ridículo num desenrolar de situações rocambolescas.
Fique esclarecido, de antemão, que mais não sou, tal como a minha colega de casa, do que uma civilizada e trivial inquilina que cumpre, sem obstar, as regras básicas de convivência num prédio. Dito isto, saboreiem-se os sequentes cenários aos quais sobrevivi qual R. Crusoe em terras por descortinar e expurgar:
Cenário 1 - Às 23:50 de uma quinta-feira - cobiçando a sexta -, cujo dia do mês é irrelevante evidenciar, estava eu a entrar em casa, chegada do cinema, quando, no momento imediatamente após ter descalçado os sapatos para calçar as pantufas, me açoitam a porta por tantas vezes que ainda hesitei em ir sequer apurar quem seria. Poucos segundos decorridos, decidi, em peugadas de algodão (literalmente), espreitar, em abafadiças gargalhadas soluçadas, tais inconvenientes e inesperadas visitantes nocturnas. E eram logo três - só não vinham aos pares porque não calhou! Mal vislumbrei aquelas...não recomendáveis figuras, deixei-me levar por um ímpeto irreflectido e aparvalhado, resolvendo-me por abrir a porta; senão bem corria o risco de a esmocarem. "- Boa noitxi! Só viémos djizê pa você tê mais cuidado com us sautos em casa. Lá em baixo ouvimus tudo e pôr isso nem consiguimus dormi! Sim, é vêrdádji! Poh! É com cada chingádéla qui até faiz imprêssão!". Não se desenganem, foi isto mesmo que me foi dito pela trindade de brasileiras que, desaustinadas, viram reclamar com maior desfaçatez do que aquela com que bateram à minha porta. " Minhas senhoras, não sei se repararam mas já me encontro em pantufas há mais tempo que aquele que passou desde a entrada em minha casa até à mudança de calçado. Além disso, nem se fala nos gritinhos histéricos que as senhoras emitem aquando da minha jornada de estudo", retorqui-lhes eu. " O quê? Não si compara à essis batuquis qui eu oiço sobri a minha cábêça durantxi o djia". Já farta daqueles desaforos inconsequentes, respondi: "Minhas queridas, vão dormir que eu também pretendo fazer o mesmo. Já agora, se não for pedir muito, mais tranquilidade e equilíbrio durante a tarde para ver se não precisam de regressar a portas alheias durante a noite. Passem bem!", e fechei o raio da porta. Dias mais tarde, ao que parece, a minha colega ouviu, de fonte segura - a porteira -, dizer que "ai...aqui à minha frente moram umas meninas muito sossegadinhas, que não fazem barulho nenhum e não trazem rapazes lá para casa". Pois, pois, vai contar histórias! Não só aquela bruxa estava a tentar dizer dissimuladamente, numa tentativa aspirante a subtileza, que nós (eu e a minha colega) éramos o oposto, como não conhecia, de todo, ou fingia não conhecer, aquelas almas cândidas que moravam mesmo ao lado da sua porta eternamente entreaberta.
Cenário 2 - Numa noite bem comida e bem regada, em minha casa, estava outra trindade de longe mais recomendável que a primeira. As três - eu, a minha colega e outra amiga -, numa demanda sôfrega por mais álcool desnecessário, descemos, em passos velozes e cadenciados, as escadas desde o 2º andar ao r/ch, pelo que, entre o 1ºandar e o r/ch ouvimos as descabidas e chicoteadas palavras "Mais termos! Parecem umas cabras!" advindas daquela porta entreaberta que já conhecemos. Não dando a embriaguez importância a palavras vãs e que jamais chegam ao céu, prosseguimos em direcção ao supermercado já encerrado entretanto. Decorridos alguns dias desde o sucedido, o meu namorado desce as mesmas escadas, de rompante e implacavelemente, dirigindo-se, em largas passadas, à porteira que havia reclamado por termos anexado os baldes de tinta seca ao amontoado de sacos do lixo, no sítio dele: " Isso têm é que chamar a Câmara, não é para estar aí". Explicando calmamente a correcta e favorável localização geográfica dos baldes, primeiro à porteira, e depois ao marido, parecia tudo estar a encarrilar na perfeição. Contudo, a páginas tantas, engrenou-se ali discussão tal que até já a inquilina de um prédio em frente ao nosso se metia ao baralho, fundindo-se com a restante maralha e retumbando expressões carinhosas como "seus gaiatos dum cabrão! Vocês devem é prestar respeito aos mais velhos! Ai, nossa senhora, que aqui a vizinha (porteira) tem problemas de coração e vocês só estão a enervá-la! Querem dar cabo dela, seus fedelhos!". A mulher (porteira), cada vez mais contorcida e irrigada de sangue nos olhos, para mais, encorajada pela inquilina "estrangeira" a simular quase um enfarte fulminante, revelou-se, por fim, disparatando " Seus nojentos! É o que vocês são!". Ora, esta era a minha deixa: " seus nojentos? Componha-se e veja se da próxima não escarafuncha tanto na vida das outras pessoas, se desce a escadaria sem aparentar uma cabra e se fecha aquela sua porta que já fede de tanta bisbilhotice que por lá entrou".
Outros cenários, mais breves, se apensam a estes, mas escusamos de aflorá-los quando já está tudo dito.

Destravadas Divagações

Ai...que bom é ter um texto para escrever - há séculos transcorridos - e não o fazer (mas fazendo-o, sem muito desarreigar da fontanela). Debandemos por entre um e outro assuntos levianos e dignos de sátira, como algures e nalgum dia me foi sugerido. Desta feita, para principiar esta jornada corriqueira e espirituosa, arrogo a este recentíssimo florilégio desenfreado - que em jeito de crónicas sociais se verte - o título de " destravadas divagações", de forma a dar jus à denominação do próprio blog.
Aqui, pois, vos deixo com as consequentes rubricas, com a promessa do seu término para breve. Durará enquanto a expiação destas sinuosas semanas de exames se delongarem - estival será e nada mais.
Para o ano, retomarei com o pé direito.

Seguir-se-ão, ou não, por esta ordem subsequentes rúbricas numeradas:

1. O rebelde obediente
2. Caminha is not a sport
3. Os pervertidos dos lupanares (por mal) perto, querem-se bem longe
4. Afinal as paredes não escutam como falam
...




sábado, 24 de abril de 2010

Casus Belli

O Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa deverá apreciar na próxima semana o enunciado de um exame, relativo ao casamento homossexual, que alguns alunos afirmam ser uma "provocação discriminatória e ridícula", Público.

Compulsemos antecipadamente o teste que se segue sem mais afloramentos ou delongas:

A Assembleia da República aprovou, em complemento à lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um diploma com o seguinte teor:

“Artigo 1° – É admitido o casamento poligâmico entre seres humanos.

Artigo 2° – Desde que exista um projecto de vida em comum, podem também contrair casamento um ser humano com um animal vertebrado doméstico.

Artigo 3° – Podem ainda contrair casamento dois animais vertebrados domésticos da mesma espécie, desde que exista consentimento dos respectivos donos”.

a) Se procurasse defender a constitucionalidade do diploma, que argumento utilizaria? (5 vals.)

b) E se lhe fosse pedido defender a sua inconstitucionalidade, quais os argumentos que usaria? (7 vals.)

Interessante, antes de mais, que a alínea b), referente à inconstitucionalidade, seja mormente valorada que a alínea a), alusiva à constitucionalidade do diploma. Apense-se a isto a gradação crescente manifestamente depreciativa e jocosa que resulta da subreptícia analogia entre casamento poligâmico entre seres humanos e do casamento de seres humanos com animais, integrando isto o complemento à lei sobre o casamento homossexual. O teste é, à vista desarmada e aos olhos de qualquer leigo, integralmente tendencioso, parecendo-me ainda que reserva o propósito oculto de formatar as mentes indemnes dos novatos da FDL. Não obstante este amargo e furtivo ensaio sobre o atentado - não à ilustre dignidade da pessoa humana, mas... - à auto-determinação e bom senso dos alunos, creio que este deslize do Professor Paulo Otero espoletou a reivindicação da liberdade e multiplicidade de ideias, bem como demonstrou que essas ideias não são vendáveis ou susceptíveis de conversão directa em notas à revelia da irrefutável magistri opinio.

No entanto, como aluna do Professor Paulo Otero, tenho apenas a acrescentar que no que concerne à explanação de matéria constitucional e a nível de oralidade é irrepreensível. Apenas este senão, aparentemente gigantesco - ornamentado com moldes mediáticos -, supracitado e analisado.




domingo, 4 de abril de 2010

O costume - esse aneurisma

Não se pretenda aqui leccionar matéria de Direito, nem tão pouco enfadar os leitores com significantes alheios à sua atenção e entendimento.
Principiemos antes por aflorar o costume como fonte de cabal hábito humano, tão sublime e brutal como uma singela folha outoniça a pousar sobre uma poça turva e esbatida; quero com isto, ironicamente, dizer que não há nada mais rotineiro, insatisfatório e regularmente entediante do que o costume - ora faça-se como sempre se fez e façamo-lo porque era assim que os nossos ancestrais o repetiam inadvertidamente. Ademais, julgo inadmissível a associação plena e directa à moral - "a moral e os bons costumes" -, como se a moral andasse irmanada a comportamentos meramente convencionais ou combinados, ou será que me converto numa indigente amoral por quebrar o costume? Achava que era desse modo que o mundo "pulava e avançava como bola colorida" - Chegamos? Não chegamos? - rasgando antigos costumes e redescobrindo mentalidades. Enfim...lá se iriam os comportamentos irracionais e automáticos, desprovidos de espírito que nos oferecem a oportunidade de não pensar aquando do seu processo; ora, que grande maçada! É isto o costume: um sono, um adormecimento interno - Que náusea de vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim! - a fluir que nos submete a um estado de inconsciência e sonambulismo puros. E as acções? Onde se meteram elas? Porventura no eclipse de intencionalidade que as comporta?

"Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?"

O dia está encoberto pela névoa do automatismo, da regra, do hábito, da rotina, do quotidiano. Irra! Estou farta da linha recta, do servilismo ao correcto e ao irrepreensível.

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?"





terça-feira, 23 de março de 2010


Uma cadeira isolada e irredutível,
é assim que me sinto, é assim que me tenho.
A vaguear pelo corredor venho
e termino num canto indivisível.

Soluço e resguardo a expressão
mas debalde pois meu ar é rarefeito.
Tenho os olhos presos ao chão.
o sorriso contrafeito,
a feição distorcida.

As palavras caem-me ao lado,
a matéria esvoaça pela porta fora.
Tenho os punhos cerrados -
a melancolia não se demora.

Ferem-me as divagações,
agravam-se as pupilas a focar o vazio.
Ora vario, ora desvario...
já não atento nem animo.
Meu corpo todo debruça-se sobre o indistinto;
agora decoro-o, mais tarde desminto-o.

Sou uma cadeira irredutível e isolada.
Assim me tenho, assim me sinto...
o que sinto é nada.

terça-feira, 16 de março de 2010

The girl who couldn't cry


On the top of the mountain
covered with grass and so high,
there was seated a depressed girl
who couldn't ever cry.

She tried too hard,
she pushed it so much on a strange kind of way
that somehow her eyes went blue
and the oceans began to say:

" - Go ahead, pretty girl,
cry us a river so we won't ever get dry...";
but the poor tiny thing
put such an effort on what we may say
that split her eyes out,
and bled till death right away.

At the end of the story,
this melancholic and unhappy end,
I profit by to avoiding
that before you struggle that hard
you should think twice before going to hell.



quinta-feira, 11 de março de 2010

Truth is beauty, beauty is truth

Com base na obra de O. Wilde “ O homem sob a alma do socialismo”, infere-se que os homens têm tentado resolucionar o problema da pobreza divertindo o pobre, ao invés de reconstruir uma sociedade de raiz onde esta seja materialmente intangível. Wilde acreditava que, ao converter a propriedade privada em riqueza comum, restaurar-se-ia a sociedade à sua própria condição de organismo “completamente saudável”. Tem sarcástica graça que por vezes o pobre seja louvado por ser “económico”, contanto que “…recomendar economia ao pobre (…) é como aconselhar a um homem que está a morrer de fome a comer menos”. Viver do subsídio do desemprego é vergonhoso – "pobres" dos contribuintes andam a pagar o pão daqueles cadáveres ambulantes…! Estupores, a viverem às custas dos demais trabalhadores! -, já um pobre virtuoso é de salutar. E o individualismo? Como beneficiar dessa dádiva dimanada do socialismo? A propriedade privada comprimiu-o e criou um individualismo falso: " Privou uma parte da comunidade de ser individual ao colocá-la à fome, e privou a outra parte de ser individual ao colocá-la no caminho errado e atravancando-o de dificuldades". Numa sociedade como a nossa, onde os bens estão conotados com estatuto, honra, respeito, títulos, e sendo o homem tendencialmente ambicioso, torna-se sua finalidade amontoar bens sem qualquer finalidade social, mas antes para cristalino e exclusivo proveito próprio. O problema adveio com a industrialização: um homem tem uma máquina que faz o trabalho de quinhentos homens. " Assim quinhentos homens ficam no desemprego, em consequência e, por causa disso, têm fome e começam a roubar".

O homem foi criado real e efectivamente para coisa melhor que varrer lixo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Metamorfose


Assenta a certas individualidades da nossa era - facilmente presumíveis; basta atentar ao telejornal ainda que com olhar alheado - a frase de P. Valery "nem sempre sou da minha opinião". Pois bem, pior que não ter qualquer opinião, é formular opiniões que nada nos dizem e convencermo-nos delas primeiro para então, depois, convencermos os outros.
Se é "absurdo o homem que nunca muda", absurdos são aqueles que não mudam nem de estratégia, nem de discurso propagandístico tão esvaziado de conteúdo como de honesta intencionalidade (se é que me faço entender...). E falando em intenções, de acordo com O. Wilde, "as boas intenções têm sido a ruína do mundo. As únicas pessoas que realizaram alguma coisa foram as que não tiveram intenção alguma", ou como diria a populaça, " de boas intenções está o inferno cheio!". Não querendo estar demasiadamente amigada da pirraça e da sátira - ainda que com dificuldade sobre-humana -, tenho tido, ultimamente, sério embaraço em acreditar que "com o engodo de uma mentira se pesca uma carpa da verdade". Mais, adito a isso a credibilidade da justiça, pois não é à toa que alguém tenha vindo a escapar ao engodo da Independente, ao do Freeport, ao célebre caso da tvi e, mais recentemente, ao engodo das escutas. Questiono-me, com acentuada incerteza, em que escombros sombrios estrebucha a carpa prometida!
Em jeito de remate, deixo em suspenso a seguinte interrogação: se alguém em tão elevado cargo goza de tamanha e revoltosa imunidade, como estará todo o palanque em que este se apoia para se equilibrar?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Está na moda ser-se anti-qualquer-coisa no facebook


Ao que parece, o terramoto que é o facebook anda a gerar ondas de cólera por todo o mundo. As pessoas superam as suas diferenças para se associarem em aglomerados de gente anti-qualquer coisa. O mais curioso de tudo isto é que as pessoas o fazem com o intuito de se destacarem dos demais, sendo a formação destes grupos o meio ultimamente predilecto. Está na berra integrar grupos adversos tais como "Denunciemos e discriminemos todos os homófobos", "Odeio grupos" entre outros. Já garantia V. Hugo que
" O odioso é a porta de saída do ridículo!". Agora questionemos-nos sobre as repercussões destes m0vimentos anti-qualquer-coisa...pois é, não resultam em nada senão em associações de pessoas que desprezam as mesmas coisas. É uma espécie de "Eu odeio as pessoas que têm notas altas injustificadas. Tu também? Junta-te a mim! Consequências: zero. Este fenómeno advém da liberdade de expressão esbofeteada por descerebrados com gravosa falta de imaginação e pouco para fazer da vida. A única vantagem que deste fenómeno poderá decorrer será o facto de consistir num exímio objecto de estudo social. Quanto a mim, creio que isto se assemelha em grande medida ao diagnóstico retirado dos Shoppaholics, ou seja, revela um vazio emocional unicamente compensado mediante a formação de grupos hostis, através dos quais se manifestam e se exteriorizam pensamentos e sentimentos reais e fictícios. Deste modo, todos se sentem integrados, parte de alguma coisa - ainda que manifestamente oca - com o bónus que representa a publicitação desta turbulência inconsequente e infundada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Boys will be boys


Alguém, digno da minha admiração mas nem sempre da minha concordância, afirmou outrora que "em geral, consideram-se sinceros todos os rapazes com convicções e incapazes de criticar". Para o homem, tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua intolerância e subsequentes acessos de irascibilidade desmedida e, às tantas, infundada. "Um primeiro amor dá espírito às raparigas; o rapaz é menos estúpido no segundo". Bem, na verdade é possível verificar-se a mesma estupidez nas raparigas, mas regra geral...
Podemos indagar sobre o que aconteceria se os pudéssemos moldar a nosso belo prazer e torná-los menos irritáveis, menos insensíveis, menos estúpidos "no primeiro". Imagine-se, sem embargo da impossibilidade absoluta, que o conseguiríamos. Suponhamos que eles se metamorfoseassem para seres mais cautelosos, mais ponderados, mais diligentes, mais sensíveis, menos estúpidos, menos voláteis, menos dados a brincadeiras perigosas, menos presunçosos e menos amantes de piadas terrivelmente secas. Afinal de contas, são essas as características que os formulam - quer o aceitemos ou não -, todavia, "toda a arte é um problema de equilíbrio entre dois opostos". Como diria Ernest Renan, "A mulher que se parece connosco é antipática: o que nós buscamos no outro sexo é o oposto de nós mesmos". Bem que podemos ser dotados de uma auto-estima altíssima, mas ao fim do dia cansamos-nos de conviver com os nossos próprios pensamentos; precisamos, de alguma forma, de uma lufada de ar fresco - ou de estupidez...que seja! -, o que nos reconduz aos homens, "animais muito estranhos: uma mistura do nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo". Portanto, por muito que os tentemos formatar, por muito que tentemos extrair-lhes o nervosismos, subtrair-lhes a teimosia e suavizar-lhes a malícia, a verdade é que " boys will be boys" and there's not much we can do about it but to accept it.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos

«Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.
Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.
Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente. Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.
E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes. »


Além desta pseudo-análise social, é determinante aditar-se que Nietzsche costumava afirmar, com atordoante descontracção, que a compaixão pelo próximo era uma animalidade, bem como, para os mais desatentos, não devemos olvidar que este constituiu uma fonte inesgotável de cólera há décadas sorvida e interiorizada pelo nosso bem amado A. Hitler.
Desta feita, pretendo antes de mais introduzir a real temática que aqui venho abordar - o nosso interesse dissimulado pelo próximo. Quer-me parecer que, tal como S. Johnson já suspeitava, "dois homens não podem ficar juntos durante meia hora sem que um adquira evidente superioridade sobre o outro". Mais aguçado se torna este sentimento quando toca ao relacionamento entre um homem e uma mulher - a inevitável e incorrigível disputa pela supremacia que irá determinar a posição a tomar dentro da relação. E de forma genérica, que posição toma "o outro" no nosso universo relacional? Bem como outrora fora declarado por alguém de quem não me recordo, todos nós temos forças suficientes para suportar os males dos outros..."! Senão recorde-se a antiga e altruísta expressão "com o mal dos outros posso eu bem!". Podemos sempre, distanciando-nos de ludibriantes e emotivos argumentos, que é pelos outros que aprendemos através de vivências que não sentimos nós mesmos. Mas..."existirá alguém tão esperto que aprenda pelas experiências dos outros?"; não creio de todo. Um argumento mais jocoso poderá incidir sobre o nosso talento inato para a crítica e para a chalaça; todavia...desvelar os defeitos será verdadeiramente um talento? Ou uma lamentável faceta nossa?
Para cessar com argumentos instáveis e insólitos, parafraseio simplesmente que "A minha opinião é que nós temos de nos emprestar aos outros, mas apenas nos darmos a nós mesmos".

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Raios partam o acordo


Hoje, ao debruçar-me sobre uma página do público, deparei-me com a dilemática questão quanto à aplicação imediata (ou não) do acordo ortográfico. Vasco Graça Moura afirmava que o processo ainda podia ser parado, já o Governo, incorporado na voz da nova ministra da cultura, Gabriela Canavilhas, retorquia o seguinte: “Quem não está a aceitar isto são umas baratas tontas na CPLP [Comunidade de Países de Língua Portuguesa] que têm que arranjar um pretexto para terem alguma actividade”. Ora, eu julgo - e corrijam-me os que acharem que estou errada - que quem se lembrou de criar a tal “unidade gráfica” é que não tinha mais nada que fazer senão subjugar a nossa língua, originária do latim, à pseudo-língua - tão maltratada tanto na gramática como na sintaxe mais no Brasil do que em Portugal - de um país por nós colonizado, esquartejando brutalmente o seu purismo. José Mário Costa, fundador e coordenador do site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa declara que o português se arrisca a ter não duas ortografias oficias, mas oito e isso não pode acontecer numa língua que pretenda ser universal. Vejamos: todos nós partilhamos dessa aspiração, todavia, por que não cede antes o Brasil no aspecto da ortografia? Por que motivo temos que ser nós a deturpar as nossas palavras ao ponto de criarmos vocalicamente um “c” futuramente omisso na palavra facto? Mais…mas que animalidade será esta de substituir o acento agudo pelo circunflexo em nomes próprios como António? Sim, leiam Antônio e apreciem a gargalhada que se manifesta na sonoridade. “O texto é aberto mas é ambíguo e tem até contradições internas. Mas ninguém o vai ler quando tiver dúvidas”, diz Margarida Correia. Aliás, eu ouso atestar que ninguém irá sequer consultar os novos dicionários que forem publicados! Retrógrada ou “barata tonta”, tal como me designaria o Governo, a verdade é que vou continuar a escrever como sempre fiz, bem como aquelas pessoas que já o fazem há tantas décadas que nem se vão preocupar em actualizar-se. José Mário Costa considera que falta ainda saber quem manda na língua, e é sem dúvida uma boa questão, em virtude desta imposição que nos foi feita, sabendo nós que, para não variar, rendemo-nos às ordens emanadas do estrangeiro.Já dizia Pessoa, com razão, que “nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo.” Isto é, tomara que estas “mentes brilhantes” não pensassem colectivamente na mesma imbecilidade. Contudo, tal como o que se tem verificado, o despotismo prevalece em todas as matérias e aferimos como sempre que o “ despotismo impressiona pela estupidez do estilo”.
Perfaço - para aqueles que já desmaiaram o ânimo da leitura - parafraseando W. Churchill: “Não há mal nenhum em mudar de opinião - de estratégia, de acordo ortográfico…-, contanto, que seja para melhor!”


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Cegueiras


“É preciso saber curar as cegueiras das paixões, pobres e pequeninas, que nos enevoam a vista”, C. Poiares

Nietzsche diz, na plenitude da sua sapiência, que a “Política é a Guerra continuada por outros meios”, pois não poderia estar mais de acordo. Não me refiro somente à política hedionda dos senhores da guerra, senhores do mundo – os Bilderberger – ou de pequenas porções dele, mas à política exercida pelas mãos de cada um de nós, aquela que nos diz respeito e a mesma que nos é imposta pelas novas leis da sobrevivência/ conveniência – vales pelo que tens e não pela tua essência – numa sociedade onde “…um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado ou doutor, e então, ainda que não voe o consideram” e, ao mesmo tempo, em adição paradoxal, onde “…os deuses não gostam dos planos dos homens e não gostam do seu sucesso, a menos que tenha acontecido por acaso”.
É, por tudo isto, complicado não nos deixarmos corromper pelas mesquinhas cegueiras, uma vez fatigados de tantas contradições e exigências por parte da sociedade (que tanto nos tende a abraçar como a engolir-nos). E é com base nesta massa heterogénea, que constitui a nossa sociedade, que apelo às consciências democráticas: será que queremos, deveras, ser todos iguais? Partilhar os mesmos direitos sim, indubitavelmente! Mas será justo sermos todos nivelados quando, em verdade, a realidade faz de nós pessoas diferentes? Não acontecerá, também, que nos estejamos todos a deixar levar pela corrente - que corre normal e progressivamente crescente – dos “... casados, fúteis, quotidianos e tributáveis?”. O que é que a sociedade pretende de nós e o que esperamos nós de nós próprios? Creio que o fim último de qualquer ser humano será, indiscutivelmente, alcançar a felicidade, seja ela momentânea ou ilusoriamente eterna (tal como nós o não somos). E aqui retomamos a questão dos meios: todos os meios para atingi-la são legítimos desde que não se estrangule os sonhos dos outros nem se transgrida a lei e ou se interfira com o bem-estar comum. Contudo, o fenómeno a que hoje assistimos é um pouco mais complexo que isso; trata-se de um problema que move massas – o egotismo. Definitivamente, o Outro ou os Outros foram gradualmente eliminados da base de dados do actual modelo de indivíduo. E, impressionantemente, o papel da sociedade volta a revelar falhas de carácter grave, porque, afinal de contas, é a sociedade em si que incita a que o próprio indivíduo continue a agir desta forma, cultivando, deste modo, o narcisismo em detrimento de qualquer gesto de altruísmo. Repare-se que actualmente a maioria de nós conflui para as mesmas aspirações: poder económico e reconhecimento público. O que eu considero evolutivamente retrógrado e humanamente desnaturado; porque se é nesta “massa irregular/ de prédios sepulcrais” e carros altamente sorvedouros e poluentes que se traduz a grandeza civilizacional da nossa sociedade, então, poder-se-á dizer, com toda a verosimilhança, que a cegueira é a peste negra do século XXI.
Em suma, “estas cegueiras das paixões, pobres e pequeninas, que nos enevoam a vista”, não são mais do que uma retracção da visão humanista, solidária e apologista dos valores do liberalismo para uma visão individualista e formatada, fruto de uma política amoral, onde predominam valores materialistas e a qual obriga incessantemente a acreditar na mais pré-histórica concepção da lei do mais forte, em que “quem não devora é devorado”. Porém, nada acontece por acaso na política, de facto, isto consiste, nada mais, nada menos, numa boa táctica de dividir para reinar. Assim, tenho esperança que a minha geração venha corrigir esta «contemplação desinteressada» do outro, porque a vontade não livre ou inconcretizável – fazendo minhas as palavras de Nietzsche – é mitologia!

3 questões

As questões que foram propostas requerem uma avaliação sistemática e minuciosa – É mais importante defender a liberdade ou a igualdade? São mais importantes os direitos das maiorias ou das minorias? Até que ponto os direitos individuais têm primazia sobre o bem-comum? - , de modo que o texto que apresento está dividido por citações a propósito seguidas de uma reflexão exaustiva e devidamente fundamentada que pretende responder às três perguntas interligando-as de um modo coeso:
"Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade”. E a responsabilidade reside na preocupação de defender os direitos dos menos livres. Deste modo, concordo em plenitude com esta nova medida propagandista que o senhor primeiro ministro apresentou anunciando tributação acrescida por parte dos mais favorecidos. E por que não? Será errado? Uma vez que se fala de justiça, diria que esta se patenteia na desigualdade e não na igualdade, como por aí é dito desabridamente. Isto é, igualdade de oportunidade de recorrer à justiça para todos, porém, cada caso é um caso singular com circunstâncias também elas singulares. Porque, e parafraseando Cesare Cantú, "a democracia fundada sobre a igualdade absoluta é a mais absoluta das tiranias". Assim sendo, "a igualdade só poderá ser soberana nivelando as liberdades, desiguais por natureza". E para que tal suceda verdadeiramente é preciso a intervenção do homem como ser político e social, já que "é falso que a igualdade seja uma lei da natureza. A natureza não faz nada igual; a sua lei soberana é a subordinação e a dependência ".
Não existe cenário mais pródigo que o do nosso país para espelhar esta realidade, agora que os efeitos da recessão mundial estão à vista de todos – só o sector têxtil nacional terá perdido, em 2008, cerca de 12 mil postos de trabalho, garantem as associações patronais. De acordo com dados que o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), no mês de Janeiro inscreveram-se nos centros de emprego 70.334 desempregados, um aumento de 27,3 por cento em relação ao mês homólogo de 2008 e de 44,7 por cento quando comparado com Dezembro. No final do mês passado estavam inscritos nos centros de emprego do Continente e Regiões Autónomas 447.966 desempregados, número que representa 85,5 por cento de um total de 523.986 pedidos de emprego. Há uma semana, o INE divulgou que a taxa de desemprego atingiu os 7,6 por cento no final de 2008, o que representa um desagravamento face aos 8 por cento de 2007 e traduz um ligeiro aumento face ao trimestre anterior (em que a taxa se situou 7,7 por cento). O Governo estima para o conjunto de 2009 que a taxa de desemprego se situe nos 8,5 por cento. Face a esta situação absolutamente calamitosa, cito Thomas Carlyle declarando que "um homem desejoso de trabalhar, e que não consegue encontrar trabalho, talvez seja o espectáculo mais triste que a desigualdade ostenta ao cimo da terra".
"O desejo de igualdade levado ao extremo acaba no despotismo de uma única pessoa"; ou não veríamos com tanta insolência as opiniões dos outros partidos políticos, sobretudo as de esquerda, reduzidas a insignificantes sugestões suspensivas que facilmente se volatilizam aquando de uma ou duas palavras evasivas do primeiro ministro, chegando à mesquinhez da injúria directa. Bem dizia Salman Rushdie que "no catálogo dos direitos humanos não existe o direito a não ser ofendido; se existisse, ninguém poderia dizer ou escrever uma palavra". Não obstante, quanto a este assunto, J. de Sousa retorquiu, um dia, e com toda a legitimidade que " se estamos hoje aqui, senhor primeiro ministro, não é graças a si, mas ao partido comunista português".
Seja como for, nunca deixemos que os valores cheguem ao limite de se tornarem a coisa em si, isto é, a igualdade como valor absoluto exclui a essência da sua finalidade para dar lugar ao seu valor antagónico; ou seja, defendendo a igualdade contra todos os casos particulares caímos no erro de ignorar os valores e interesses individuais. Já dizia Nietzsche que “ a ruína de Deus: tornou-se a «coisa em si», «absolutum»”, quer com isto dizer que se transmutou no bem em si próprio, excluindo todos os momentos de guerra, sofrimento e fome com que este é complacente – os casos peculiares. O mesmo profere que “ há no homem algo de fundamental, que não se conseguiu”, e eu digo que há algo de fundamental no sistema democrático que ainda não se conseguiu: premeditar e adaptar o próprio sistema político aos casos particulares; e nisto não me refiro à lei, que está repleta de casos particulares, mas sim àquilo que diz respeito à participação na vida pública e às consequências do nivelamento social – “somos todos iguais”-, porque é uma calúnia afirmar-se convictamente que somos todos iguais. Teremos todas as mesmas habilitações? As mesmas competências? O mesmo estatuto? O mesmo patamar financeiro? Se há algo que será correcto defender-se então falemos de igualdade de oportunidades – que todos sabemos não corresponder na totalidade à realidade (veja-se o caso das cunhas, dos “amigos”e dos cargos de conveniência política) – que aí sim, se não estamos, deveríamos estar todos no mesmo patamar. Contudo, como já referi anteriormente, nunca caiamos no disparate do valor absoluto, desprezando as particularidades da realidade como ela é.
"Não há sujeição tão perfeita como aquela que conserva a aparência da liberdade; dessa forma, cativa-se a própria vontade", senão veja-se o caso da censura "magalhiana", que chegou a ser alvo de sátira política durante o corso de Torres Vedras como sendo "a censura da censura". Para além disso, no mesmo desfile ainda retratam "o casamento de conveniência" entre José Sócrates e Hugo Chavez, traduzindo "o negócio do ano da troca de petróleo pelo Magalhães". Como se não bastasse, os professores do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura cumpriram as ordens da DREN de realizar o desfile de Carnaval com os alunos, mas descontentes, apareceram de negro amordaçados e com correntes nas mãos, alegorizando a afronta governamental protagonizada pelo primeiro ministro José Sócrates e a sua ministra da educação Maria de Lurdes.
Recorde-se agora, numa perspectiva mais globalista, o relatório dos EUA sobre os Direitos Humanos: se por um lado o documento crítica as condições dos direitos do Homem na China e contém observações sobre os sistemas étnico, religioso e legal chinês, do ponto de vista da agência oficial Nova China, este relatório "ignora deliberadamente e deforma os factos" assim como "ignora os esforços efectuados pela China" neste domínio. Mais acrescentaram que os mesmos "foram reconhecidos largamente pela comunidade internacional". Ora, aqui estão claramente presentes duas noções divergentes de liberdade que entram em confronto à luz do foco mundial, divergindo a visão ocidental com a oriental. No que diz respeito a este caso, relembro que, independentemente das perspectivas, há uma palavra-chave no sentido de esclarecer estes litígios, ou não seriam estes direitos universais. Quando a liberdade é sufocada, a pátria perde grande parte do seu sentido, assim como estrangula os direitos intrínsecos à humanidade no seu todo. Em suma, tanto a liberdade como a igualdade devem ser dois valores presentes numa sociedade democrática global, uma vez que, se as liberdades forem as mesma para todos, a igualdade prevalece e o equilíbrio mantém-se (claro que sempre as suas lacunas, ou não fossemos nós humanos e os seres humanos não fossem de carácter imperfeito).
"Os homens raramente são dignos de se representar a si mesmos". Relativamente a esta questão da dualidade existente entre os direitos individuais e o bem-comum, devo dizer que esse é um problema intrínseco à democracia; o direito das maiorias que prevalece sobre os interesses individuais é um aspecto particular que, como tal, deve ser tratado através do senso de justiça. Como F. Pessoa refere, "a sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrência intermitentes. Cada homem é, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indivíduo distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, opõe-se-lhes. Como sociável, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes". Recorrendo a um caso prático, falemos agora do caso específico dos referendos e das suas consequências práticas: tendo por base a ideia de que a maioria escolhe o destino da sociedade no seu todo, não posso deixar de pensar, por exemplo, no futuro referendo sobre a eutanásia. Para muitos, é impensável, para os mais tolerantes, uma saída viável e a mais humana, visto que é aquela que mais se inquieta com o sofrimento incessante e indefinido. Desta feita, caso seja negada pela maioria, a eutanásia, que pode ser a única forma de uma pessoa ter o direito (individual) de pôr fim à própria dor, acaba por se tornar nula, face ao peso irrevogável e esmagador da maioria. De qualquer modo, creio que esta será ad aeternum uma problemática sem resolução definitiva, contudo, não deixa de possuir um grande teor polémico com repercussões gravosas. Ademais, é imprescindível que – de modo a não tornar esta questão ainda mais danosa – toda a população seja imbuída de um aguçado espírito crítico e de um esclarecimento razoável sobre os assuntos propostos, uma vez que "para a formação da consciência pública, para a criação de determinado ambiente, dada a ausência de espírito crítico ou a dificuldade de averiguação individual, a aparência vale a realidade, ou seja: a aparência é uma realidade política". Seja como for, as minorias devem ser ouvidas, pois a voz da razão nem sempre se incorpora na garganta da maioria. Pode haver senso comum a coexistir com o mau senso, ou seja, poderá haver momentos em que a maioria esteja errada, mas é uma vulgaridade confundir-se a razão com a maioria: "todos têm o seu método tal como todos têm a sua loucura; mas só consideramos sensato aquele cuja loucura coincide com a da maioria". Para além disso, há algo que a maioria frequentemente alega como se de uma verdade irrefutável se tratasse: é uma questão de princípios. “Um homem realmente não pode ter a rigidez impassível de um princípio. Os princípios são insensíveis e intangíveis – e os homens são um feixe de nervos sujeitos a todas as influências mesmo as da chuva e do vento”, senão tornar-se-ia um ditador, e como ditador ostracizaria a minoria, submetendo-a a uma decisão alegadamente “de princípios”.
Concluindo definitivamente, e com tudo o que já foi anteriormente dito, resta-nos o problema da fraqueza do idealismo, a falta de consistência dos ideais e o comodismo procrastinado que tolera as diferenças abismais – tal como a quase inexistência da classe média –, tolera a liberdade elevada de uns face à raia miúda – o caso dos politicamente protegidos que adiam ou arquivam facilmente um caso de tribunal –, tolera a cegueira do povo – o caso de Fátima Felgueiras e o seu grupo de apoiantes em Felgueiras -, é complacente com a desigualdade de oportunidades – o caso já referido das cunhas e dos “amigos” -, consente a ruína dos valores fundamentais - a maioria inibir a minoria de recorrer à eutanásia ou ao aborto -, entre outras grandes falhas da democracia assentes na falta de consistência dos ideais e da luta pelos direitos fundamentais. Porém, como tudo, não podemos transformar o idealismo num valor absoluto, já que “ a arte idealista esquece que há no homem – nervos, fatalidades hereditárias, sujeições às influências determinantes de hora, alimento, atmosfera, etc; irresistíveis teimas físicas, tendências de carnalidade fatais; resultantes lógicas de educação; acções determinantes ao meio” que fazem parte da humanidade e sempre farão.

UE


Um em cada seis europeus vive abaixo do limiar da pobreza. A população europeia está a envelhecer e apesar de décadas de acção a nível europeu e nacional, as remunerações das mulheres continuam a ser inferiores às dos homens, estando elas também sub-representadas nos órgãos dirigentes das empresas e nos governos. Dada esta realidade e tendo em consideração que o futuro da Europa será marcado por uma crescente concorrência mundial, desenvolvimento tecnológico contínuo e desafios ambientais, a União Europeia está a reforçar as suas estratégias políticas para melhorar a capacidade de adaptação dos seus cidadãos, promover o empreendedorismo em áreas afectadas por alterações económicas e ajudar as regiões onde estão previstas reestruturações. Como tal, a comissão Europeia colabora com os governos nacionais e outras entidades para aproveitar os aspectos positivos desta evolução demográfica, assegurando simultaneamente a sustentabilidade das pensões e dos cuidados de saúde - contrariando as decisões baseadas em valores radicalmente opostos como é o caso da privatização dos hospitais em Portugal, em detrimento do sistema nacional de saúde; de facto, “ a economia é extremamente útil como forma de emprego para os economistas” - e cuidados prolongados. A UE esforça-se ainda por garantir a igualdade de tratamento independentemente da origem étnica e racial, religião, deficiência, orientação sexual e idade. Mas como é óbvio, a legislação e as iniciativas comunitárias só são eficazes se as pessoas as conhecerem e compreenderem. Consequentemente, surgem campanhas de informação como a “Para a diversidade – Contra a discriminação”, que procura sensibilizar o público para a legislação no domínio da igualdade de tratamento e promover as vantagens da diversidade.
Por conseguinte, como medida de combate ao desemprego, a UE lançou o programa Progress, criado para ajudar financeiramente a implementação dos objectivos da UE no que toca ao emprego, assuntos sociais e igualdade de oportunidades; contribui também para alcançar a estratégia de emprego e crescimento “Lisboa”. Trabalhando lado a lado com o Fundo Europeu social, Progress começou em 2007 e irá estender-se até 2013. Este programa vem substituir os quatro programas anteriores que terminaram em 2006 abrangendo medidas sociais de igualdade e empregabilidade. Desta forma, irá resultar no apoio dos estados membros para garantir que estes cumprem os objectivos delineados para criar mais e melhores empregos. Para finalizar, a comissão irá seleccionar quais os projectos a financiar através de concursos públicos e privado, financiando os seleccionados em 80% do custo total.
Para além deste sistema, surge como resposta à instabilidade do mercado de trabalho, o programa flexissegurança, concebido para garantir aos trabalhadores uma transição segura dentro do mercado de trabalho, mantendo e melhorando simultaneamente a competitividade das empresas e preservando o modelo social europeu. Medidas como o incentivo à aprendizagem ao longo da vida, o reforço do apoio às pessoas à procura de emprego (dada em Portugal pelo IEFP) e as quotas de trabalho dadas a mulheres e a pessoas portadoras de deficiência, contribuem para uma maior flexissegurança. Ademais, este programa não se restringe à transladação segura do trabalhador, este visa ainda uma perspectiva de criação de emprego a nível local, isto é, trata-se de uma estratégia inclusiva que consagra uma especial atenção aos novos fenómenos, como a migração e as alterações demográficas. A responsabilidade das empresas obriga-as, em especial às que empregam grande número de trabalhadores, – pergunto-me onde estará patente esta estratégia europeia no que diz respeito aos despedimentos colectivos no caso da lactogal, Quimonta, Autoeuropa, Impala, Controlineveste, Borgstena, Continental Mabor, Ecco’let – a consultar os seus parceiros locais e a colaborar com os mesmos.
Novas competências para novos empregos são requeridas com cada vez maior exigência; – Que trabalho haverá dentro de dez ou vinte anos? Servirá a formação de hoje para encontrar trabalho amanhã? – a rapidez com que se processam as transformações no mundo do mercado de trabalho requerem prévia antevisão, formação e informação de modo a garantir uma rápida adaptação à mudança. Por este motivo, os Estados-Membros da EU pediram à Comissão Europeia que informe sobre as futuras necessidades de competências na EU até 2020. Esta é a denominada iniciativa “novas competências para novos empregos”. Porém, a gestão e canalização da informação em Portugal é deveras ineficiente, não podendo eu constatar um esclarecimento geral da população, particularmente na camada jovem. Evidentemente que “o trabalho qualificado implica de certo modo um elemento de capital pois a educação e a formação exigem recursos”, e não me quer parecer que Portugal esteja preparado para requalificar a população ao nível europeu, contendo ainda tantas falhas ao nível do sistema educativo. Assim concluo que este objectivo da estratégia para o crescimento e emprego da EU, mais uma vez, não está ao nosso alcance, uma vez que outros problemas de ordem estrutural se encontram por resolver.
Consta ainda, segundo um estudo do Eurostat que remonta a Abril deste ano, que Espanha e França constituem os países mais afectados pela crise, tendo o primeiro uma taxa de desemprego de 15.5% e França 8.6%, já Portugal subiu para os 8.3%, sendo que no mês homólogo do ano passado recaía sobre uns menos aterradores e mais modestos 7.6 %. Face a isto, o Governo português tem-se esforçado por fazer passar as seguintes mensagens ao país: a crise que o país enfrenta e o seu agravamento previsível para 2009 têm apenas causas externas; o governo vai aumentar significativamente o investimento público em 2009 para assim reduzir os efeitos da crise, nomeadamente no campo do desemprego. Consequentemente, bombardeia o seu público-alvo, todos os dias e invariavelmente, com novas medidas de cariz social – nada a propósito da aproximação das eleições – tais como tornar gratuitos os medicamentos genéricos aos reformados com pensão inferior ao salário mínimo e oferecer cheques dentários de 120 euros às grávidas e de 80 aos idosos. Mas isto não corresponde à realidade que mostram os dados oficiais nem ao plano original do orçamento de Estado. Tanto que o investimento público previsto no PIDDAC para 2009 é inferior, ao de 2003, em 25,8% em valores nominais, em menos de 34,9% a preços de 2003, que se obtêm deduzindo o efeito do aumento dos preços verificado entre 2003 e 2009. O valor de 2009 é também inferior ao registado em 2007 em cerca de 500 milhões de euros. Mesmo o reduzido aumento em 2009, relativamente a 2008, não compensa a continuada quebra registada no investimento público, devido à obsessão de reduzir o défice orçamental – ainda que à custa das infra-estruturas básicas do país – e à urgência vertiginosa de investir em obras exacerbadamente dispendiosas como o TGV e o intermitente, mas (assunto) sempre presente, aeroporto de Lisboa.
Por outro lado, e como o Parecer do Tribunal de Contas revela, uma coisa é o investimento previsto e outra coisa, totalmente diferente, é o investimento realizado.
Verificando-se, portanto, após a tomada de posse do actual Governo, a nível do PIDDAC (programa de investimento mais importante do Estado), uma taxa de execução muito baixa. Deste modo, dada a diferença significativa que se tem verificado entre o previsto e o realizado, e o insuficiente investimento público anunciado para este ano, é de prever que os seus efeitos de combate à recessão e ao aumento do desemprego sejam extremamente reduzidos ou nulos. Senão vejamos que o forte endividamento quer das famílias, quer das empresas, quer do país que se verificou desde a tomada de posse deste Governo, assim como o reduzido investimento registado na agricultura e na industria, não prepararam Portugal para enfrentar a crise. E isto apesar de ela se ter tornado previsível desde Agosto de 2007, contudo a miopia do Governo e o pensamento económico neoliberal impediu que fossem tomadas atempadamente medidas para reduzir os efeitos. Efectivamente, “é mais fácil parecer digno dos empregos que não temos do que daqueles que exercemos”
Concluo, assim, que é deveras complexa a questão de tornar viáveis, reais e concretas, para o nosso país, as medidas introduzidas pela EU no sentido de reduzir o impacto da crise sobre a taxa de desemprego. Era necessária uma intervenção directa, situação essa politicamente inoperável. De qualquer modo, “o trabalho convém ao homem, (...) evita que ele olhe para esse outro que é ele e que lhe torne a solidão horrível”; não é por acaso que um quarto dos portugueses sofre de depressão e que o número disparou este ano com a crise económica. E como se o desemprego não bastasse, surge no diário de negócios uma pergunta cuja resposta ser-nos-ia mais fácil tragar num estado de inconsciência profundo: “Com o Novo Código de Trabalho, despedir um trabalhador será mais fácil? À partida, todo o processo de despedimento ficará mais simples. O risco é que as empresas olhem para as medidas de simplificação como uma forma de aliviar as causas de despedimento (que se mantêm) e avancem para despedimentos ilícitos”.


Sombras

Caminha o olhar ligeiro -
pelas ombreiras das portas,
pelas gotas de Janeiro,
pelas páginas de jornais,
por nuvens levianas,
pelas passadas humanas
por todas estas sombras mundanas
em horas nada mortas
- de quem as vê o dia inteiro.

Os sentidos estendem-se à voz,
que galgando palavras vãs
se torna veloz e destrava
a língua de um modo impiedoso.
As palavras ganham exacerbada cor
e as sombras desmaiam por um segundo.
Quando voltam retomam
a vontade do mundo e envolvem
- quem as viu -
num trânsito vertiginoso e atroz.

Num rodopio sem retorno e rouco,
torna-se quem viu no objecto observado;
dá sete voltas e perde-se, estonteado,
perdendo com ele o olhar ligeiro de há pouco.

As sombras que se pisam,
sobrepõem-se cegas e ilesas.
O raiar que as mantém acesas
impede que se fundam com a escuridão
que as suaviza.
Do outro lado...uma voz que
se cala, e a sombra, que
insiste em amarrá-la,
vence por fim quem sempre a viu
mas nunca pensou assim
desamá-la.

29/12/06 (original) - modificado a 1/05/09




Luz


Claro o fogo, ludibriante a chama;
que quase se apaga antes de
o vento a levar.
Até então vibra, mas não inflama.
Some-se o incenso, a matéria e a história,
contudo, pôde a luz ficar.

É luz que queima;
que a vida tem pavio rente;
arde mas não teima
em fazer do que é o que sente.

Termina e dissipa-se lentamente.
Sobre o chão, uma mão - com um punhado de sonhos -
fechada.
Porém nunca isolada
de tudo ou de nada,
pois nunca sentiu nem sente
aquela luz apagada.

20/02/09

Ruas da tua alma

Telas desmaiadas mostram-me aldeias
banhadas em cal,
que se alojam imutáveis
em imagens - quase impalpáveis como ruínas de sal -
de calçadas acamadas em areias.

Lá ao fundo assobia o vento;
nele esvoaçam lembranças aladas,
esguias, espontâneas, como que nervosas
- recordando o teu conto de fadas -
num momento de turbulência interna,
angústia ou tormento...
apoderam-se de ti suspeitas gravosas.

De súbito...
deixei de ver-te por dentro.
Suspiro ao relento do crepúsculo
e espero que a noite me venha buscar.

Mas as andanças de aromas vivos
que erram ainda pelos telhados e
se misturam com a fumaça das
chaminés transbordam agora
pelos poros da tela fora, transportam-me
para o ambiente daquela
que é a aldeia onde está
imortalizada uma das ruas da tua alma.

14/01/06 (original) - modificado a 15/01/09

Neoterrorismo

(continuação)

Já a utilização de agentes químicos militares como armas de terror contra as populações civis é uma eventual ameaça que as autoridades de saúde pública tem a considerar. A utilização tanto de neurotóxicos como de mostarda sulfurada pelo Iraque contra o exército iraniano e civis curdos bem como os ataques com sarin em 1994/95 no Japão sublinham, subscrevem esta ameaça iminente. Em Ypres, França, as tropas alemãs sofreram pela primeira vez um bombardeamento com gás mostarda a Outubro de 1917, segundo o próprio A. Hitler que lá estava pugnando. Jacte-se a descontaminação, suporte respiratório e antídotos, já que estes são os únicos postemeiros resolventes do quadro que rapidamente se desenvolve após a exposição ao produto neurotóxico.
Retomando a citação ou mote que desencadeou o início deste solilóquio, interiorize-se que mesmo quem julga que o conflito opõe o mundo ocidental ao mundo islâmico sabe que, em todo o caso, o confronto já não é territorial – “Os famosos Estados-infames são na realidade pontos de apoio exacerbado ao terrorismo, mas o terrorismo ultrapassa (…) fronteiras” –, encontra-se disseminado no interior dos países ocidentais: o inimigo está, agora, na nossa retaguarda.
No tempo do Golfo e do Kosovo, os agentes inimigos tinham um rosto conhecido (eram mediatizados), ao passo que a maior arma do terrorismo internacional é o facto de a identidade dos inimigos permanecer desconhecida, os nossos media não poderem “monitorizá-los como Peter Arnett…” monitorizava a vida de Bagdade debaixo dos bombardeamentos ocidentais e o potencial inimigo não ser composto apenas por indivíduos de uma etnia estrangeira “infiltrados nas nossas casas”, mas potencialmente por compatriotas nossos. Qual era então o propósito de Bin Laden ao atingir as Twin Towers? “Criar o «maior espectáculo do mundo» jamais imaginado”, que sobrepujasse o mais inédito filme de catástrofes, passando a impressão visível de ataque aos símbolos de poder ocidental e mostrando que até estes “santuários” podiam ser violados. Ora, “ se o objectivo de Bin Laden era atingir a opinião pública mundial com aquela imagem, os media foram obrigados a dar notícia, a mostrar o drama dos socorros, das escavações, a skyline mutilada de Manhattan.”. Será que, todavia, também foram obrigados a repetir a mesma notícia todos os dias durante um mês (no mínimo), com fotos, vídeos, histórias contadas por infindáveis testemunhas oculares? Claro que não. Mas o relevante é que as televisões lucraram, os jornais lucraram, todos lucraram e até o próprio público queria rever aquelas horríficas cenas, quer para cultivar a sua indignação, quer por inconsciente e doentio sadismo. Infalivelmente, os media acabaram por ser os melhores aliados de Bin Laden, oferecendo-lhe “biliões de dólares de publicidade gratuita”, na medida em que reiteraram, corroboraram com as imagem que o próprio criara: se sobre os Ocidentais infundiu a “substância-perturbação”, aos seus sequazes fundamentalistas incutiu motivo de orgulho.
Um ex-director da CIA disse, na altura, que “os inimigos a abater deveriam ter sido os bancos off shore, nas ilhas Caimão, nas grandes cidades europeias. Já um político italiano confrontado na mesma época com uma insinuação desta espécie, reagiu com indignação, dizendo que era “insensato e criminoso pensar que os grandes bancos ocidentais pactuam com terroristas”. Assim se constata que “um político que já ultrapassou há demasiado tempo a idade da reforma, não compreende a verdadeira natureza de uma Neoguerra.”.
Perfaça-se, apenas, suspendendo uma questão que nos cinge a todos: “Todos nós tivemos uma guerra a bater-nos à porta de casa, conhecemos a situação de perigo contínuo…” – se se tivessem despenhado dois aviões em Notre Dame ou no Big Bem, a reacção europeia não teria assumido contornos de “dor, de indignação, de estupefacção” diferentes? Seja como for, a verdade incide sobre o facto de os Americanos terem sido atingidos, pela primeira vez, em toda a sua História, na sua casa. Em suma, ao Europeus têm muito em comum: “alegrias e dores, orgulho e vergonha, tradições a preservar e remorsos por elaborar…”, mas será que tudo isto basta para termos uma Europa efectivamente unida? Quando há uma fractura, as pessoas não estão todas de um lado ou do outro – “há sempre algumas no meio das duas (ou três, ou quatro) partes”.