sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Atitude perpétua associativa

"O último Eurobarómetro mostra que a confiança dos portugueses no funcionamento da democracia está a bater no fundo. Estão mais cépticos do que a maioria dos outros europeus, mas continuam a poupar nos protestos e vão fazendo o que sempre fizeram: ir embora. Como o pior ainda está para vir, há quem antecipe manifestações maiores e mais duras. Mas também quem preveja que a penalização se faça sentir da forma habitual: através do voto, Público"

Curiosamente este trecho reporta-me a uma célebre música dos Deolinda, ora espera lá...

-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...

É isso mesmo, sem tirar nem pôr: vão sem mim, que eu vou lá ter. No entanto, nada obsta a que dia 24 de Novembro eu lá esteja impreterivelmente e a apensar voz ao mote uníssono do "- Vamos em frente e havemos de vencer!" (porquanto não há nada mais aprazível e racional do que fazer greve durante a semana e dar uma despesa ao Estado de 280 mil milhões de euros). Soa-me outrossim àquele sketch do Gato Fedorento sobre a despenalização/liberalização do aborto quando aplicado analogicamente à letargia - que repousa nos corpos dos portugueses - do conformismo subitamente convertida na efervescência própria da greve: " Olha, vou ao cinema! Está esgotado...vou fazer greve!" e vejam lá que até calha bem, visto que eu esta semana ainda não tinha barafustado, feito queixa, reclamação ou afim e assim aproveito, faço um bulício à maneira na greve e baldo-me ao trabalho. Depois da greve, vou comer uma bucha, que se não houver bucha não contem comigo!"
Prosseguindo numa descontrolada leitura arrítmica à notícia, afiro que
"... 69 por cento dos portugueses mostram-se insatisfeitos com o funcionamento da democracia, 76 por cento proclamam que não têm confiança no Governo, 67 por cento afirmam o mesmo em relação ao Parlamento e 82 por cento desconfiam dos partidos políticos". 69 por cento...curioso número, não nas minhas palavras, mas nas palavras desatracadas de Mota Amaral, sentindo-se libertinamente inspirado a meio de mais uma sóbria e solene sessão plenária da AR. A verdade é que existe alguma confusão cognoscitiva quanto à constituição do sistema político do nosso país, pelo que constato. Ora, o Parlamento é composto por partidos políticos (evidentemente por aqueles que têm expressão) que, por sua vez, prefiguram no Parlamento, logo, parece-me que os portugueses tomam os políticos por bipolares; só isso explica que a confiança investida (em %) no Parlamento seja visivelmente superior à depositada nos partidos. Ou, a contrario sensu, se a sondagem afigurasse diversos moldes, estariam os portugueses a declarar que "são todos uma cambada de mentirosos, uns chupistas e uns ladrões, todavia, são mais convincentes quando vistos no programa Parlamento". Isto é legítimo e inequivocamente compreensível, não obstante, onde leio "ocorreu um salto dramático" na percepção que os portugueses têm dos efeitos da crise económica e financeira.", preferia ler, em anexo, que os vários postos de emprego recusados longitudinalmente pelo país com vista a aceder ao fácil subsídio de desemprego, tinham sido preenchidos pelos alegados "estrangeiros que tão para aqui a roubar aos portugueses"por falta de melhor! Salto dramático é preterir oportunidades de sustento honesto para abraçar a inércia parasitária.



sábado, 19 de junho de 2010

Candeia

Eu queria dizer-te palavras de hoje,
Esboçar palavras de amanhã,
Rabiscar palavras de outrora
Que seriam de outros tempos se os tempos fossem outros...

Agora amanheceu e as palavras aspergem-se em nevoeiro;
(E o que é o nevoeiro senão aquilo que foi e a esperança de voltar a ser?)
Mergulharam no esquecimento sem, na realidade, desaparecer
E correram o mundo escorando-se noutros braços, noutras baladas...
O que mudou não foi o que caiu em mãos erradas,
Foi o brilho que soía ser certo.

Mas até o que é certo expira; no fim, sobejam, flutuantes,
Candeias de frugal e remota flama;
O que seria depois e o que foi dantes
Jazem nesse fulgor desamparado que nem já fulgor se chama.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

2. Os pervertidos dos lupanares

Comecei a questionar-me sobre a minha sorte quando, já não bastando a acolhedora vizinhança, descobri o mais improvável dos cenários: um "ponto de encontro" camuflado pelo regular e comedido aspecto de uma tosca marisqueira cuja clientela habitual era nem mais nem menos do que o mesmo "coro dos velhos" que me fustigava a paciência naquele prédio infernal. Tinha vindo a desconfiar daquela suspeita e invariável frequência nocturna, no entanto, inebriada pela ingenuidade sempre havia pensado que " os velhotes, coitados...também precisam de entretenimento e mais dois dedos de conversa". O momento de reviravolta decorreu sobretudo no ápice em que um desses camaradas me intimou em plena rua -vinda eu de um café onde tinha estado com o meu cão - para escarrar a conspurcada deixa: " Eu percebi muito bem que o seu cão gosta de pular para o meio das pernas das mulheres...". Nem teve direito a resposta! Não porque com silêncio o quisesse reprovar, mas porquanto não tive aquela perversa perspicácia instantânea para depreender de imediato a grosseira mensagem que estava subentendida. Tudo isto convergiu para um segundo francamente confuso - por um lado estava melindrada pelo que me acabava de ser dito e, por outro, agradavelmente surpreendida por, ao contrário do habitual e ainda que fugazmente, ter sido estupidamente inocente. Fosse como fosse, algo continuava terrivelmente errado naquele panorama: como era possível que aquelas raparigas extravagantemente trajadas não fossem logo expulsas da porta do tal restaurante? Por que motivo estaria incessantemente, "à vara larga", aquele rancho de velharia especado àquela porta todas as noites sem excepção? Mais, se já estavam servidos e saciados durante a noite, de onde viria aquela inusitada necessidade de cuspir piropos durante o dia? Até hoje só inferi uma única coisa: aquela sede de sexo é congénita e altamente contagiosa entre indivíduos a cair de podres nesta região.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

4. Afinal as paredes não só escutam como falam

Já todos viram ou pelo menos ouviram falar dos filmes "Duplex" e "Uns compadres do pior" (Meet the Fockers). Pois bem, a minha narração não só perpassa as mais diversas provações e hilariantes - embora irritantes e travessas (e verídicas!) - conjecturas que estes filmes afiguram, como as superam sobejamente, extravasando as margens do ridículo num desenrolar de situações rocambolescas.
Fique esclarecido, de antemão, que mais não sou, tal como a minha colega de casa, do que uma civilizada e trivial inquilina que cumpre, sem obstar, as regras básicas de convivência num prédio. Dito isto, saboreiem-se os sequentes cenários aos quais sobrevivi qual R. Crusoe em terras por descortinar e expurgar:
Cenário 1 - Às 23:50 de uma quinta-feira - cobiçando a sexta -, cujo dia do mês é irrelevante evidenciar, estava eu a entrar em casa, chegada do cinema, quando, no momento imediatamente após ter descalçado os sapatos para calçar as pantufas, me açoitam a porta por tantas vezes que ainda hesitei em ir sequer apurar quem seria. Poucos segundos decorridos, decidi, em peugadas de algodão (literalmente), espreitar, em abafadiças gargalhadas soluçadas, tais inconvenientes e inesperadas visitantes nocturnas. E eram logo três - só não vinham aos pares porque não calhou! Mal vislumbrei aquelas...não recomendáveis figuras, deixei-me levar por um ímpeto irreflectido e aparvalhado, resolvendo-me por abrir a porta; senão bem corria o risco de a esmocarem. "- Boa noitxi! Só viémos djizê pa você tê mais cuidado com us sautos em casa. Lá em baixo ouvimus tudo e pôr isso nem consiguimus dormi! Sim, é vêrdádji! Poh! É com cada chingádéla qui até faiz imprêssão!". Não se desenganem, foi isto mesmo que me foi dito pela trindade de brasileiras que, desaustinadas, viram reclamar com maior desfaçatez do que aquela com que bateram à minha porta. " Minhas senhoras, não sei se repararam mas já me encontro em pantufas há mais tempo que aquele que passou desde a entrada em minha casa até à mudança de calçado. Além disso, nem se fala nos gritinhos histéricos que as senhoras emitem aquando da minha jornada de estudo", retorqui-lhes eu. " O quê? Não si compara à essis batuquis qui eu oiço sobri a minha cábêça durantxi o djia". Já farta daqueles desaforos inconsequentes, respondi: "Minhas queridas, vão dormir que eu também pretendo fazer o mesmo. Já agora, se não for pedir muito, mais tranquilidade e equilíbrio durante a tarde para ver se não precisam de regressar a portas alheias durante a noite. Passem bem!", e fechei o raio da porta. Dias mais tarde, ao que parece, a minha colega ouviu, de fonte segura - a porteira -, dizer que "ai...aqui à minha frente moram umas meninas muito sossegadinhas, que não fazem barulho nenhum e não trazem rapazes lá para casa". Pois, pois, vai contar histórias! Não só aquela bruxa estava a tentar dizer dissimuladamente, numa tentativa aspirante a subtileza, que nós (eu e a minha colega) éramos o oposto, como não conhecia, de todo, ou fingia não conhecer, aquelas almas cândidas que moravam mesmo ao lado da sua porta eternamente entreaberta.
Cenário 2 - Numa noite bem comida e bem regada, em minha casa, estava outra trindade de longe mais recomendável que a primeira. As três - eu, a minha colega e outra amiga -, numa demanda sôfrega por mais álcool desnecessário, descemos, em passos velozes e cadenciados, as escadas desde o 2º andar ao r/ch, pelo que, entre o 1ºandar e o r/ch ouvimos as descabidas e chicoteadas palavras "Mais termos! Parecem umas cabras!" advindas daquela porta entreaberta que já conhecemos. Não dando a embriaguez importância a palavras vãs e que jamais chegam ao céu, prosseguimos em direcção ao supermercado já encerrado entretanto. Decorridos alguns dias desde o sucedido, o meu namorado desce as mesmas escadas, de rompante e implacavelemente, dirigindo-se, em largas passadas, à porteira que havia reclamado por termos anexado os baldes de tinta seca ao amontoado de sacos do lixo, no sítio dele: " Isso têm é que chamar a Câmara, não é para estar aí". Explicando calmamente a correcta e favorável localização geográfica dos baldes, primeiro à porteira, e depois ao marido, parecia tudo estar a encarrilar na perfeição. Contudo, a páginas tantas, engrenou-se ali discussão tal que até já a inquilina de um prédio em frente ao nosso se metia ao baralho, fundindo-se com a restante maralha e retumbando expressões carinhosas como "seus gaiatos dum cabrão! Vocês devem é prestar respeito aos mais velhos! Ai, nossa senhora, que aqui a vizinha (porteira) tem problemas de coração e vocês só estão a enervá-la! Querem dar cabo dela, seus fedelhos!". A mulher (porteira), cada vez mais contorcida e irrigada de sangue nos olhos, para mais, encorajada pela inquilina "estrangeira" a simular quase um enfarte fulminante, revelou-se, por fim, disparatando " Seus nojentos! É o que vocês são!". Ora, esta era a minha deixa: " seus nojentos? Componha-se e veja se da próxima não escarafuncha tanto na vida das outras pessoas, se desce a escadaria sem aparentar uma cabra e se fecha aquela sua porta que já fede de tanta bisbilhotice que por lá entrou".
Outros cenários, mais breves, se apensam a estes, mas escusamos de aflorá-los quando já está tudo dito.

Destravadas Divagações

Ai...que bom é ter um texto para escrever - há séculos transcorridos - e não o fazer (mas fazendo-o, sem muito desarreigar da fontanela). Debandemos por entre um e outro assuntos levianos e dignos de sátira, como algures e nalgum dia me foi sugerido. Desta feita, para principiar esta jornada corriqueira e espirituosa, arrogo a este recentíssimo florilégio desenfreado - que em jeito de crónicas sociais se verte - o título de " destravadas divagações", de forma a dar jus à denominação do próprio blog.
Aqui, pois, vos deixo com as consequentes rubricas, com a promessa do seu término para breve. Durará enquanto a expiação destas sinuosas semanas de exames se delongarem - estival será e nada mais.
Para o ano, retomarei com o pé direito.

Seguir-se-ão, ou não, por esta ordem subsequentes rúbricas numeradas:

1. O rebelde obediente
2. Caminha is not a sport
3. Os pervertidos dos lupanares (por mal) perto, querem-se bem longe
4. Afinal as paredes não escutam como falam
...




sábado, 24 de abril de 2010

Casus Belli

O Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa deverá apreciar na próxima semana o enunciado de um exame, relativo ao casamento homossexual, que alguns alunos afirmam ser uma "provocação discriminatória e ridícula", Público.

Compulsemos antecipadamente o teste que se segue sem mais afloramentos ou delongas:

A Assembleia da República aprovou, em complemento à lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um diploma com o seguinte teor:

“Artigo 1° – É admitido o casamento poligâmico entre seres humanos.

Artigo 2° – Desde que exista um projecto de vida em comum, podem também contrair casamento um ser humano com um animal vertebrado doméstico.

Artigo 3° – Podem ainda contrair casamento dois animais vertebrados domésticos da mesma espécie, desde que exista consentimento dos respectivos donos”.

a) Se procurasse defender a constitucionalidade do diploma, que argumento utilizaria? (5 vals.)

b) E se lhe fosse pedido defender a sua inconstitucionalidade, quais os argumentos que usaria? (7 vals.)

Interessante, antes de mais, que a alínea b), referente à inconstitucionalidade, seja mormente valorada que a alínea a), alusiva à constitucionalidade do diploma. Apense-se a isto a gradação crescente manifestamente depreciativa e jocosa que resulta da subreptícia analogia entre casamento poligâmico entre seres humanos e do casamento de seres humanos com animais, integrando isto o complemento à lei sobre o casamento homossexual. O teste é, à vista desarmada e aos olhos de qualquer leigo, integralmente tendencioso, parecendo-me ainda que reserva o propósito oculto de formatar as mentes indemnes dos novatos da FDL. Não obstante este amargo e furtivo ensaio sobre o atentado - não à ilustre dignidade da pessoa humana, mas... - à auto-determinação e bom senso dos alunos, creio que este deslize do Professor Paulo Otero espoletou a reivindicação da liberdade e multiplicidade de ideias, bem como demonstrou que essas ideias não são vendáveis ou susceptíveis de conversão directa em notas à revelia da irrefutável magistri opinio.

No entanto, como aluna do Professor Paulo Otero, tenho apenas a acrescentar que no que concerne à explanação de matéria constitucional e a nível de oralidade é irrepreensível. Apenas este senão, aparentemente gigantesco - ornamentado com moldes mediáticos -, supracitado e analisado.




domingo, 4 de abril de 2010

O costume - esse aneurisma

Não se pretenda aqui leccionar matéria de Direito, nem tão pouco enfadar os leitores com significantes alheios à sua atenção e entendimento.
Principiemos antes por aflorar o costume como fonte de cabal hábito humano, tão sublime e brutal como uma singela folha outoniça a pousar sobre uma poça turva e esbatida; quero com isto, ironicamente, dizer que não há nada mais rotineiro, insatisfatório e regularmente entediante do que o costume - ora faça-se como sempre se fez e façamo-lo porque era assim que os nossos ancestrais o repetiam inadvertidamente. Ademais, julgo inadmissível a associação plena e directa à moral - "a moral e os bons costumes" -, como se a moral andasse irmanada a comportamentos meramente convencionais ou combinados, ou será que me converto numa indigente amoral por quebrar o costume? Achava que era desse modo que o mundo "pulava e avançava como bola colorida" - Chegamos? Não chegamos? - rasgando antigos costumes e redescobrindo mentalidades. Enfim...lá se iriam os comportamentos irracionais e automáticos, desprovidos de espírito que nos oferecem a oportunidade de não pensar aquando do seu processo; ora, que grande maçada! É isto o costume: um sono, um adormecimento interno - Que náusea de vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim! - a fluir que nos submete a um estado de inconsciência e sonambulismo puros. E as acções? Onde se meteram elas? Porventura no eclipse de intencionalidade que as comporta?

"Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?"

O dia está encoberto pela névoa do automatismo, da regra, do hábito, da rotina, do quotidiano. Irra! Estou farta da linha recta, do servilismo ao correcto e ao irrepreensível.

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?"