
“É preciso saber curar as cegueiras das paixões, pobres e pequeninas, que nos enevoam a vista”, C. Poiares
Nietzsche diz, na plenitude da sua sapiência, que a “Política é a Guerra continuada por outros meios”, pois não poderia estar mais de acordo. Não me refiro somente à política hedionda dos senhores da guerra, senhores do mundo – os Bilderberger – ou de pequenas porções dele, mas à política exercida pelas mãos de cada um de nós, aquela que nos diz respeito e a mesma que nos é imposta pelas novas leis da sobrevivência/ conveniência – vales pelo que tens e não pela tua essência – numa sociedade onde “…um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado ou doutor, e então, ainda que não voe o consideram” e, ao mesmo tempo, em adição paradoxal, onde “…os deuses não gostam dos planos dos homens e não gostam do seu sucesso, a menos que tenha acontecido por acaso”.
É, por tudo isto, complicado não nos deixarmos corromper pelas mesquinhas cegueiras, uma vez fatigados de tantas contradições e exigências por parte da sociedade (que tanto nos tende a abraçar como a engolir-nos). E é com base nesta massa heterogénea, que constitui a nossa sociedade, que apelo às consciências democráticas: será que queremos, deveras, ser todos iguais? Partilhar os mesmos direitos sim, indubitavelmente! Mas será justo sermos todos nivelados quando, em verdade, a realidade faz de nós pessoas diferentes? Não acontecerá, também, que nos estejamos todos a deixar levar pela corrente - que corre normal e progressivamente crescente – dos “... casados, fúteis, quotidianos e tributáveis?”. O que é que a sociedade pretende de nós e o que esperamos nós de nós próprios? Creio que o fim último de qualquer ser humano será, indiscutivelmente, alcançar a felicidade, seja ela momentânea ou ilusoriamente eterna (tal como nós o não somos). E aqui retomamos a questão dos meios: todos os meios para atingi-la são legítimos desde que não se estrangule os sonhos dos outros nem se transgrida a lei e ou se interfira com o bem-estar comum. Contudo, o fenómeno a que hoje assistimos é um pouco mais complexo que isso; trata-se de um problema que move massas – o egotismo. Definitivamente, o Outro ou os Outros foram gradualmente eliminados da base de dados do actual modelo de indivíduo. E, impressionantemente, o papel da sociedade volta a revelar falhas de carácter grave, porque, afinal de contas, é a sociedade em si que incita a que o próprio indivíduo continue a agir desta forma, cultivando, deste modo, o narcisismo em detrimento de qualquer gesto de altruísmo. Repare-se que actualmente a maioria de nós conflui para as mesmas aspirações: poder económico e reconhecimento público. O que eu considero evolutivamente retrógrado e humanamente desnaturado; porque se é nesta “massa irregular/ de prédios sepulcrais” e carros altamente sorvedouros e poluentes que se traduz a grandeza civilizacional da nossa sociedade, então, poder-se-á dizer, com toda a verosimilhança, que a cegueira é a peste negra do século XXI.
Em suma, “estas cegueiras das paixões, pobres e pequeninas, que nos enevoam a vista”, não são mais do que uma retracção da visão humanista, solidária e apologista dos valores do liberalismo para uma visão individualista e formatada, fruto de uma política amoral, onde predominam valores materialistas e a qual obriga incessantemente a acreditar na mais pré-histórica concepção da lei do mais forte, em que “quem não devora é devorado”. Porém, nada acontece por acaso na política, de facto, isto consiste, nada mais, nada menos, numa boa táctica de dividir para reinar. Assim, tenho esperança que a minha geração venha corrigir esta «contemplação desinteressada» do outro, porque a vontade não livre ou inconcretizável – fazendo minhas as palavras de Nietzsche – é mitologia!

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