(continuação) Já a utilização de agentes químicos militares como armas de terror contra as populações civis é uma eventual ameaça que as autoridades de saúde pública tem a considerar. A utilização tanto de neurotóxicos como de mostarda sulfurada pelo Iraque contra o exército iraniano e civis curdos bem como os ataques com sarin em 1994/95 no Japão sublinham, subscrevem esta ameaça iminente. Em Ypres, França, as tropas alemãs sofreram pela primeira vez um bombardeamento com gás mostarda a Outubro de 1917, segundo o próprio A. Hitler que lá estava pugnando. Jacte-se a descontaminação, suporte respiratório e antídotos, já que estes são os únicos postemeiros resolventes do quadro que rapidamente se desenvolve após a exposição ao produto neurotóxico.
Retomando a citação ou mote que desencadeou o início deste solilóquio, interiorize-se que mesmo quem julga que o conflito opõe o mundo ocidental ao mundo islâmico sabe que, em todo o caso, o confronto já não é territorial – “Os famosos Estados-infames são na realidade pontos de apoio exacerbado ao terrorismo, mas o terrorismo ultrapassa (…) fronteiras” –, encontra-se disseminado no interior dos países ocidentais: o inimigo está, agora, na nossa retaguarda.
No tempo do Golfo e do Kosovo, os agentes inimigos tinham um rosto conhecido (eram mediatizados), ao passo que a maior arma do terrorismo internacional é o facto de a identidade dos inimigos permanecer desconhecida, os nossos media não poderem “monitorizá-los como Peter Arnett…” monitorizava a vida de Bagdade debaixo dos bombardeamentos ocidentais e o potencial inimigo não ser composto apenas por indivíduos de uma etnia estrangeira “infiltrados nas nossas casas”, mas potencialmente por compatriotas nossos. Qual era então o propósito de Bin Laden ao atingir as Twin Towers? “Criar o «maior espectáculo do mundo» jamais imaginado”, que sobrepujasse o mais inédito filme de catástrofes, passando a impressão visível de ataque aos símbolos de poder ocidental e mostrando que até estes “santuários” podiam ser violados. Ora, “ se o objectivo de Bin Laden era atingir a opinião pública mundial com aquela imagem, os media foram obrigados a dar notícia, a mostrar o drama dos socorros, das escavações, a skyline mutilada de Manhattan.”. Será que, todavia, também foram obrigados a repetir a mesma notícia todos os dias durante um mês (no mínimo), com fotos, vídeos, histórias contadas por infindáveis testemunhas oculares? Claro que não. Mas o relevante é que as televisões lucraram, os jornais lucraram, todos lucraram e até o próprio público queria rever aquelas horríficas cenas, quer para cultivar a sua indignação, quer por inconsciente e doentio sadismo. Infalivelmente, os media acabaram por ser os melhores aliados de Bin Laden, oferecendo-lhe “biliões de dólares de publicidade gratuita”, na medida em que reiteraram, corroboraram com as imagem que o próprio criara: se sobre os Ocidentais infundiu a “substância-perturbação”, aos seus sequazes fundamentalistas incutiu motivo de orgulho.
Um ex-director da CIA disse, na altura, que “os inimigos a abater deveriam ter sido os bancos off shore, nas ilhas Caimão, nas grandes cidades europeias. Já um político italiano confrontado na mesma época com uma insinuação desta espécie, reagiu com indignação, dizendo que era “insensato e criminoso pensar que os grandes bancos ocidentais pactuam com terroristas”. Assim se constata que “um político que já ultrapassou há demasiado tempo a idade da reforma, não compreende a verdadeira natureza de uma Neoguerra.”.
Perfaça-se, apenas, suspendendo uma questão que nos cinge a todos: “Todos nós tivemos uma guerra a bater-nos à porta de casa, conhecemos a situação de perigo contínuo…” – se se tivessem despenhado dois aviões em Notre Dame ou no Big Bem, a reacção europeia não teria assumido contornos de “dor, de indignação, de estupefacção” diferentes? Seja como for, a verdade incide sobre o facto de os Americanos terem sido atingidos, pela primeira vez, em toda a sua História, na sua casa. Em suma, ao Europeus têm muito em comum: “alegrias e dores, orgulho e vergonha, tradições a preservar e remorsos por elaborar…”, mas será que tudo isto basta para termos uma Europa efectivamente unida? Quando há uma fractura, as pessoas não estão todas de um lado ou do outro – “há sempre algumas no meio das duas (ou três, ou quatro) partes”.

Muito bom texto! Grande pesquisa aqui realizada. Mostrando o essencial, os inimigos agora são aqueles sem rosto, entidades e organizações espalhadas um pouco por todos os países, sejam eles ocidentais, árabes ou mesmo judaicos.
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