Curiosamente este trecho reporta-me a uma célebre música dos Deolinda, ora espera lá...
-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...
É isso mesmo, sem tirar nem pôr: vão sem mim, que eu vou lá ter. No entanto, nada obsta a que dia 24 de Novembro eu lá esteja impreterivelmente e a apensar voz ao mote uníssono do "- Vamos em frente e havemos de vencer!" (porquanto não há nada mais aprazível e racional do que fazer greve durante a semana e dar uma despesa ao Estado de 280 mil milhões de euros). Soa-me outrossim àquele sketch do Gato Fedorento sobre a despenalização/liberalização do aborto quando aplicado analogicamente à letargia - que repousa nos corpos dos portugueses - do conformismo subitamente convertida na efervescência própria da greve: " Olha, vou ao cinema! Está esgotado...vou fazer greve!" e vejam lá que até calha bem, visto que eu esta semana ainda não tinha barafustado, feito queixa, reclamação ou afim e assim aproveito, faço um bulício à maneira na greve e baldo-me ao trabalho. Depois da greve, vou comer uma bucha, que se não houver bucha não contem comigo!"
Prosseguindo numa descontrolada leitura arrítmica à notícia, afiro que
"... 69 por cento dos portugueses mostram-se insatisfeitos com o funcionamento da democracia, 76 por cento proclamam que não têm confiança no Governo, 67 por cento afirmam o mesmo em relação ao Parlamento e 82 por cento desconfiam dos partidos políticos". 69 por cento...curioso número, não nas minhas palavras, mas nas palavras desatracadas de Mota Amaral, sentindo-se libertinamente inspirado a meio de mais uma sóbria e solene sessão plenária da AR. A verdade é que existe alguma confusão cognoscitiva quanto à constituição do sistema político do nosso país, pelo que constato. Ora, o Parlamento é composto por partidos políticos (evidentemente por aqueles que têm expressão) que, por sua vez, prefiguram no Parlamento, logo, parece-me que os portugueses tomam os políticos por bipolares; só isso explica que a confiança investida (em %) no Parlamento seja visivelmente superior à depositada nos partidos. Ou, a contrario sensu, se a sondagem afigurasse diversos moldes, estariam os portugueses a declarar que "são todos uma cambada de mentirosos, uns chupistas e uns ladrões, todavia, são mais convincentes quando vistos no programa Parlamento". Isto é legítimo e inequivocamente compreensível, não obstante, onde leio "ocorreu um salto dramático" na percepção que os portugueses têm dos efeitos da crise económica e financeira.", preferia ler, em anexo, que os vários postos de emprego recusados longitudinalmente pelo país com vista a aceder ao fácil subsídio de desemprego, tinham sido preenchidos pelos alegados "estrangeiros que tão para aqui a roubar aos portugueses"por falta de melhor! Salto dramático é preterir oportunidades de sustento honesto para abraçar a inércia parasitária.
