sexta-feira, 18 de junho de 2010
2. Os pervertidos dos lupanares
Comecei a questionar-me sobre a minha sorte quando, já não bastando a acolhedora vizinhança, descobri o mais improvável dos cenários: um "ponto de encontro" camuflado pelo regular e comedido aspecto de uma tosca marisqueira cuja clientela habitual era nem mais nem menos do que o mesmo "coro dos velhos" que me fustigava a paciência naquele prédio infernal. Tinha vindo a desconfiar daquela suspeita e invariável frequência nocturna, no entanto, inebriada pela ingenuidade sempre havia pensado que " os velhotes, coitados...também precisam de entretenimento e mais dois dedos de conversa". O momento de reviravolta decorreu sobretudo no ápice em que um desses camaradas me intimou em plena rua -vinda eu de um café onde tinha estado com o meu cão - para escarrar a conspurcada deixa: " Eu percebi muito bem que o seu cão gosta de pular para o meio das pernas das mulheres...". Nem teve direito a resposta! Não porque com silêncio o quisesse reprovar, mas porquanto não tive aquela perversa perspicácia instantânea para depreender de imediato a grosseira mensagem que estava subentendida. Tudo isto convergiu para um segundo francamente confuso - por um lado estava melindrada pelo que me acabava de ser dito e, por outro, agradavelmente surpreendida por, ao contrário do habitual e ainda que fugazmente, ter sido estupidamente inocente. Fosse como fosse, algo continuava terrivelmente errado naquele panorama: como era possível que aquelas raparigas extravagantemente trajadas não fossem logo expulsas da porta do tal restaurante? Por que motivo estaria incessantemente, "à vara larga", aquele rancho de velharia especado àquela porta todas as noites sem excepção? Mais, se já estavam servidos e saciados durante a noite, de onde viria aquela inusitada necessidade de cuspir piropos durante o dia? Até hoje só inferi uma única coisa: aquela sede de sexo é congénita e altamente contagiosa entre indivíduos a cair de podres nesta região.
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