domingo, 4 de abril de 2010

O costume - esse aneurisma

Não se pretenda aqui leccionar matéria de Direito, nem tão pouco enfadar os leitores com significantes alheios à sua atenção e entendimento.
Principiemos antes por aflorar o costume como fonte de cabal hábito humano, tão sublime e brutal como uma singela folha outoniça a pousar sobre uma poça turva e esbatida; quero com isto, ironicamente, dizer que não há nada mais rotineiro, insatisfatório e regularmente entediante do que o costume - ora faça-se como sempre se fez e façamo-lo porque era assim que os nossos ancestrais o repetiam inadvertidamente. Ademais, julgo inadmissível a associação plena e directa à moral - "a moral e os bons costumes" -, como se a moral andasse irmanada a comportamentos meramente convencionais ou combinados, ou será que me converto numa indigente amoral por quebrar o costume? Achava que era desse modo que o mundo "pulava e avançava como bola colorida" - Chegamos? Não chegamos? - rasgando antigos costumes e redescobrindo mentalidades. Enfim...lá se iriam os comportamentos irracionais e automáticos, desprovidos de espírito que nos oferecem a oportunidade de não pensar aquando do seu processo; ora, que grande maçada! É isto o costume: um sono, um adormecimento interno - Que náusea de vida! Que abjecção esta regularidade! Que sono este ser assim! - a fluir que nos submete a um estado de inconsciência e sonambulismo puros. E as acções? Onde se meteram elas? Porventura no eclipse de intencionalidade que as comporta?

"Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?"

O dia está encoberto pela névoa do automatismo, da regra, do hábito, da rotina, do quotidiano. Irra! Estou farta da linha recta, do servilismo ao correcto e ao irrepreensível.

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?"