terça-feira, 16 de fevereiro de 2010


Sombras

Caminha o olhar ligeiro -
pelas ombreiras das portas,
pelas gotas de Janeiro,
pelas páginas de jornais,
por nuvens levianas,
pelas passadas humanas
por todas estas sombras mundanas
em horas nada mortas
- de quem as vê o dia inteiro.

Os sentidos estendem-se à voz,
que galgando palavras vãs
se torna veloz e destrava
a língua de um modo impiedoso.
As palavras ganham exacerbada cor
e as sombras desmaiam por um segundo.
Quando voltam retomam
a vontade do mundo e envolvem
- quem as viu -
num trânsito vertiginoso e atroz.

Num rodopio sem retorno e rouco,
torna-se quem viu no objecto observado;
dá sete voltas e perde-se, estonteado,
perdendo com ele o olhar ligeiro de há pouco.

As sombras que se pisam,
sobrepõem-se cegas e ilesas.
O raiar que as mantém acesas
impede que se fundam com a escuridão
que as suaviza.
Do outro lado...uma voz que
se cala, e a sombra, que
insiste em amarrá-la,
vence por fim quem sempre a viu
mas nunca pensou assim
desamá-la.

29/12/06 (original) - modificado a 1/05/09



Nenhum comentário:

Postar um comentário