«Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento.Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.
Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente. Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.
E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes. »
Além desta pseudo-análise social, é determinante aditar-se que Nietzsche costumava afirmar, com atordoante descontracção, que a compaixão pelo próximo era uma animalidade, bem como, para os mais desatentos, não devemos olvidar que este constituiu uma fonte inesgotável de cólera há décadas sorvida e interiorizada pelo nosso bem amado A. Hitler.
Desta feita, pretendo antes de mais introduzir a real temática que aqui venho abordar - o nosso interesse dissimulado pelo próximo. Quer-me parecer que, tal como S. Johnson já suspeitava, "dois homens não podem ficar juntos durante meia hora sem que um adquira evidente superioridade sobre o outro". Mais aguçado se torna este sentimento quando toca ao relacionamento entre um homem e uma mulher - a inevitável e incorrigível disputa pela supremacia que irá determinar a posição a tomar dentro da relação. E de forma genérica, que posição toma "o outro" no nosso universo relacional? Bem como outrora fora declarado por alguém de quem não me recordo, todos nós temos forças suficientes para suportar os males dos outros..."! Senão recorde-se a antiga e altruísta expressão "com o mal dos outros posso eu bem!". Podemos sempre, distanciando-nos de ludibriantes e emotivos argumentos, que é pelos outros que aprendemos através de vivências que não sentimos nós mesmos. Mas..."existirá alguém tão esperto que aprenda pelas experiências dos outros?"; não creio de todo. Um argumento mais jocoso poderá incidir sobre o nosso talento inato para a crítica e para a chalaça; todavia...desvelar os defeitos será verdadeiramente um talento? Ou uma lamentável faceta nossa?
Para cessar com argumentos instáveis e insólitos, parafraseio simplesmente que "A minha opinião é que nós temos de nos emprestar aos outros, mas apenas nos darmos a nós mesmos".

O texto, embora tenha uma veia pessimista em relação ao relacionamento humano, tem pontos (infelizmente?) verdadeiros. A relatar:
ResponderExcluir- "dois homens não podem ficar juntos durante meia hora sem que um adquira evidente superioridade sobre o outro";
- Vai ao encontro da corrente neo-freudiana de que o altruísmo é uma outra forma de egoísmo.
Mesmo assim, sou da opinião de que cada relação é uma relação, que pode ou não ter aproximação à que está descrita no texto.