segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Texto para concurso em nada apreciado


Esperança e desespero de alimento

Me servem neste dia em que te espero

E já não sei se quero ou se não quero

Tão longe de razões é meu tormento.


Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

Ainda que mo dês – pois o que eu quero

Ninguém o dá senão num momento.


Mas como és belo, amor, de não durares,

De ser tão breve e fundo o teu engano,

E de eu te possuir sem tu te dares.


Amor perfeito dado a um ser humano:

Também morre o florir de mil pomares

E se quebram as ondas do oceano.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Ninguém lhe conseguia vislumbrar as feições. Era noite e a escuridão envolvia cada sítio e cada coisa no seu manto sombrio e soturno. O ar, esse estava rarefeito; nada mais natural depois daquele nefasto incêndio. A verdade é que isso contribuia de sobremaneira para uma desmotivação geral. Para todos excepto para ela, cuja “esperança e desespero de alimento” parecia tocar o céu denegrido e entornado sobre as lesírias. Poderia procurar a noite inteira, e se mesmo assim a noite integra não bastasse, então prosseguiria a busca até encontrá-lo – “vivo ou morto, já tanto faz” – por entre os arvoredos, as silvas e os matagais. Ele estava ali mesmo, estático e movendo branda e intuitivamente os olhos como quem quisesse falar mas não tivesse palavras suficientemente robustas que suportassem a mágoa sentida. Tinha assitido a muito mais do que era humanamente tolarável, ademais, o cheiro a carne carbonizada e putrefacta não o deixavam esquecer. O estado dele era efectivamente de uma mudez e surdez voluntária e irreversível. O silêncio era, afinal, a única atmosfera que o reconfortava ainda que iludivelmente.
Finalmente, pela madrugada gélida e insensível, ele foi encontrado encostado a um carvalho, absorto, chamuscado, repleno de cinzas e com uma criança loura e radicalmente mutilada estendida no colo. Criança essa com uma cisão aterradora no centro do diafragma e com uma expressão gravemente tétrica que horrorizaria qualquer um que a contemplasse naquele momento. Era deveras desolador. A multidão permanecia temporariamente silenciosa e impotente perante tamanha calamidade. Enquanto a turba engolia os pensamentos e digeria a situação, Madalena dirigiu-se ao seu homem e colocou uma mão sobre o seu rosto e outra sobre o rosto da criança. A criança era filha de ambos; – “ Pálida, impassiva, serena. Tal como nasceu, assim expira.”- sempre fora frágil e precária de saúde, por isso sua mãe, para grande espanto da multidão, aceitou com passividade a sua morte. O dia tinha definitivamente irrompido e o fúneral foi naquela mesma tarde, e nessa mesma tarde o seu homem partiu inconformado com a morte do filho. A convivência com Madalena tornara-se, agora, simplesmente insuportável. Não é que a considerasse culpada, mas era-lhe impossível sequer confrontá-la com o olhar. Ele partiu, e ela ficou sozinha, com a companhia de uma roca para sempre fiar.
Todos os dias fiava e cantava uma suave e profética canção de embalar que costumava ser cantada ao seu rebento, – “ Mas como é belo, amor, de não durares, de ser tão breve e fundo o teu engano, e de eu te possuir sem tu te dares”- e isto todos as tardes àquela mesma hora em que o seu homem tinha partido. No entanto, a canção e o movimento circular e repetitivo da roca começava agora a transformar-se numa obsessão doentia. Já não se penteava, não tomava banho e os cabelos cada vez mais desgrenhados emaranhavam-se na agulha da roca ao ponto de ter começado a fiar os próprios cabelos; - “E já não sei se quero ou se não quero. Tão longe de razões é meu tormento”. – naquelas suas palavras estava um misto de desespero e de loucura. Pedia a todos os seus santinhos que o seu homem regressasse com novo ânimo, revigorado daquela perda medonha. Mas ele nunca deu sinal de vida: nem uma visita, nem uma carta. Porém, não conseguia viver na ausência dos dois. Por fim, a sua loucura atingiu o auge máximo: com os próprios cabelos ia tecendo uma manta com que se iria cobrir a si e ao cadáver do seu primogénito. Queria acabar os seus dias ali, junto ao seu rebento, subterrada.
Nessa noite, pegou num balde e numa enxada e começou a cavar no exacto ponto onde jazia a criança loura, pálida, passiva e serena. Foi uma noite inteira tal como na noite da busca. Uma noite mergulhada em mágoa e insanidade. Assim, estando a criança já à vista, bebeu dum veneno que ela mesma havia preparado para aquele momento e nos segundos que lhe restavam cobriu-se, a ela e ao menino, e esperou que a morte chegasse na madrugada seguinte. E ali estavam os dois, mãe e filho, cobertos por uma estranha manta de fios de cabelo de ouro envoltos de uma outra manta adornada pelo negrume da morte e da noite. Trágico destino o daquela família, que não soube esperar nem restaurar-se. Principalmente o de Madalena, cuja loucura começou no preciso momento em que, aparentemente calma, ergueu o filho nos braços e ela mesma preparou o enterro, ríspido e desabrido, que afugentou o marido. Mais se acrescenta, que aqueles dias, horas, aquele tempo todo que passou não era mais que psicológico. Na verdade, não passou mais que um dia; na verdade o seu filho não tinha realmente falecido. E é assim, que na madrugada seguinte, Madalena é encontrada morta e abraçada ao filho que chorava aflitivamente. No entanto, aquela loucura tinha ao menos salvo o seu filho de morrer enterrado vivo. Desta forma, o seu homem ergue novamente a criança e com a ajuda da turba, e tendo a certeza de que não restara sinais vitais, a enterrou. Além disso, tocado pelo gesto demente mas terno de Madalena, mandou esculpir uma lápide consagrando o amor que aquela mãe nutria pelo filho: Amor perfeito dado a um ser humano: "também morre o florir de mil pomares e se quebram as ondas do oceano".

2 comentários:

  1. Este texto foi criado não só por mim como por uma colega minha, Tatiana Pacheco.

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  2. Que querida!

    é verdade comungamos a desoladora face da derrota...

    Mas o mérito daquela que é artista é o tardio reconhecimento por aqueles que são puristas.
    Confesso que quando me apresentas-te esta peça fui invadida pelo temor de não alcançar o nível que com ela me exigias. Deveras muito bem escrito, mas, para mais, muito bem pensado, imaginado... A acrescentar que construiste uma história do meio para o fim... ufh! genial

    Admiro o teu talento e a tua versatilidade*

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