segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Poema de abertura


Encostamo-nos a sonhos e corremos a realidade;
Somos feitos de cólera e de expiação passageira;
Irradia-nos como sol de Inverno a genialidade e logo a barbaridade nos toma.
Será possível que tenhamos tanto de vulgaridade como de complexidade?
Cogito e regogito imagens que ora me fragmentam, ora me sustêm inteira.

Com suspiro angustiado quebro o assobio de ar vibrante e calo a voz que me assombra.
Na penumbra faz-se luz e de súbito inunda-se de sombra.
Oiço aquela voz a que chamamos consciência a puxar-me para o universo
Sinto tudo o mais disperso e tento recolher algum sentido
Será possível nunca ter havido descanso deste infindável zumbido?

Somos múltiplos e um só numa caixa de pandora
Ainda mais sós nos apartamos, tingimos de negrume o céu e a terra;
As velas hasteadas que nos norteiam esvoaçam, voláteis, iluminadas
E observamos, a velejar ou a submergir, as nossas lembranças ancoradas.
Criamos mundos, mas o nosso forte são as muralhas de receios e de demora que criamos à nossa volta.

Divagar, apartar, criar?
Soa-me a lugar comum, onde já nos cruzámos todos um dia.
De repente eu já sabia que tudo o que fora dito era vago,
Insensato o instante em que nos tentei percorrer!
Todavia é disto que nos alimentamos: daquilo que é criado só para depois o vermos morrer.

2 comentários:

  1. Evidente genialidade!Imensuraveis as qualidades que lhe aplico.
    Já conhecia esta tua faceta, rara nos comuns mortais, de interesse pelo o que nos rodeia mas desconhecia estas tuas façanhas. ;)
    Vou ser visitante assídua!

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  2. Andas a ler muito F. Pessoa ;) Gosto!

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