segunda-feira, 7 de junho de 2010

4. Afinal as paredes não só escutam como falam

Já todos viram ou pelo menos ouviram falar dos filmes "Duplex" e "Uns compadres do pior" (Meet the Fockers). Pois bem, a minha narração não só perpassa as mais diversas provações e hilariantes - embora irritantes e travessas (e verídicas!) - conjecturas que estes filmes afiguram, como as superam sobejamente, extravasando as margens do ridículo num desenrolar de situações rocambolescas.
Fique esclarecido, de antemão, que mais não sou, tal como a minha colega de casa, do que uma civilizada e trivial inquilina que cumpre, sem obstar, as regras básicas de convivência num prédio. Dito isto, saboreiem-se os sequentes cenários aos quais sobrevivi qual R. Crusoe em terras por descortinar e expurgar:
Cenário 1 - Às 23:50 de uma quinta-feira - cobiçando a sexta -, cujo dia do mês é irrelevante evidenciar, estava eu a entrar em casa, chegada do cinema, quando, no momento imediatamente após ter descalçado os sapatos para calçar as pantufas, me açoitam a porta por tantas vezes que ainda hesitei em ir sequer apurar quem seria. Poucos segundos decorridos, decidi, em peugadas de algodão (literalmente), espreitar, em abafadiças gargalhadas soluçadas, tais inconvenientes e inesperadas visitantes nocturnas. E eram logo três - só não vinham aos pares porque não calhou! Mal vislumbrei aquelas...não recomendáveis figuras, deixei-me levar por um ímpeto irreflectido e aparvalhado, resolvendo-me por abrir a porta; senão bem corria o risco de a esmocarem. "- Boa noitxi! Só viémos djizê pa você tê mais cuidado com us sautos em casa. Lá em baixo ouvimus tudo e pôr isso nem consiguimus dormi! Sim, é vêrdádji! Poh! É com cada chingádéla qui até faiz imprêssão!". Não se desenganem, foi isto mesmo que me foi dito pela trindade de brasileiras que, desaustinadas, viram reclamar com maior desfaçatez do que aquela com que bateram à minha porta. " Minhas senhoras, não sei se repararam mas já me encontro em pantufas há mais tempo que aquele que passou desde a entrada em minha casa até à mudança de calçado. Além disso, nem se fala nos gritinhos histéricos que as senhoras emitem aquando da minha jornada de estudo", retorqui-lhes eu. " O quê? Não si compara à essis batuquis qui eu oiço sobri a minha cábêça durantxi o djia". Já farta daqueles desaforos inconsequentes, respondi: "Minhas queridas, vão dormir que eu também pretendo fazer o mesmo. Já agora, se não for pedir muito, mais tranquilidade e equilíbrio durante a tarde para ver se não precisam de regressar a portas alheias durante a noite. Passem bem!", e fechei o raio da porta. Dias mais tarde, ao que parece, a minha colega ouviu, de fonte segura - a porteira -, dizer que "ai...aqui à minha frente moram umas meninas muito sossegadinhas, que não fazem barulho nenhum e não trazem rapazes lá para casa". Pois, pois, vai contar histórias! Não só aquela bruxa estava a tentar dizer dissimuladamente, numa tentativa aspirante a subtileza, que nós (eu e a minha colega) éramos o oposto, como não conhecia, de todo, ou fingia não conhecer, aquelas almas cândidas que moravam mesmo ao lado da sua porta eternamente entreaberta.
Cenário 2 - Numa noite bem comida e bem regada, em minha casa, estava outra trindade de longe mais recomendável que a primeira. As três - eu, a minha colega e outra amiga -, numa demanda sôfrega por mais álcool desnecessário, descemos, em passos velozes e cadenciados, as escadas desde o 2º andar ao r/ch, pelo que, entre o 1ºandar e o r/ch ouvimos as descabidas e chicoteadas palavras "Mais termos! Parecem umas cabras!" advindas daquela porta entreaberta que já conhecemos. Não dando a embriaguez importância a palavras vãs e que jamais chegam ao céu, prosseguimos em direcção ao supermercado já encerrado entretanto. Decorridos alguns dias desde o sucedido, o meu namorado desce as mesmas escadas, de rompante e implacavelemente, dirigindo-se, em largas passadas, à porteira que havia reclamado por termos anexado os baldes de tinta seca ao amontoado de sacos do lixo, no sítio dele: " Isso têm é que chamar a Câmara, não é para estar aí". Explicando calmamente a correcta e favorável localização geográfica dos baldes, primeiro à porteira, e depois ao marido, parecia tudo estar a encarrilar na perfeição. Contudo, a páginas tantas, engrenou-se ali discussão tal que até já a inquilina de um prédio em frente ao nosso se metia ao baralho, fundindo-se com a restante maralha e retumbando expressões carinhosas como "seus gaiatos dum cabrão! Vocês devem é prestar respeito aos mais velhos! Ai, nossa senhora, que aqui a vizinha (porteira) tem problemas de coração e vocês só estão a enervá-la! Querem dar cabo dela, seus fedelhos!". A mulher (porteira), cada vez mais contorcida e irrigada de sangue nos olhos, para mais, encorajada pela inquilina "estrangeira" a simular quase um enfarte fulminante, revelou-se, por fim, disparatando " Seus nojentos! É o que vocês são!". Ora, esta era a minha deixa: " seus nojentos? Componha-se e veja se da próxima não escarafuncha tanto na vida das outras pessoas, se desce a escadaria sem aparentar uma cabra e se fecha aquela sua porta que já fede de tanta bisbilhotice que por lá entrou".
Outros cenários, mais breves, se apensam a estes, mas escusamos de aflorá-los quando já está tudo dito.

Um comentário:

  1. e sussurram, bafejando-nos com inusitados queixumes, como se de despique se tratasse, por vezes de ratos defuntos inexistentes, cuspindo-se a ameaça que dever-se-ia chamar os "bombeiros", tamanha era a porcaria deixada por uma lata meio vazia de tinta engelhada... ai os tempos em que o papa a Portugal veio e, num carreirismo pueril, se afastaram as ovelhas para junto do pastor e o prédio com as "cabras" ficou na quietude de um deus que, se por vezes lá mora, naquela tarde se ausentou por obséquio papal... bons tempos em que à inquietação humana, e no caso, estudantil, se juntava a terna idade dos -entas... :) Tatiana

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